segunda-feira, 16 de junho de 2008

O país do agronegócio e o nosso

Escrito por Luis Fernando Novoa Garzon

fonte:Correio da Cidadania

13-Jun-2008


A limitação do crédito rural a propriedades sem regularização ambiental é uma reação tardia e incompleta ao avanço do desmatamento na Amazônia. Financiamento público não pode ser isento de critérios sociais e ambientais, senão não pode ser chamado de público. Seria apenas uma forma a mais de canibalização de recursos públicos. É o mínimo que também deveria se esperar do BNDES, mãe, pai, padrinho, conselheiro e sócio de empreendimentos e iniciativas de grande escala, mas que, em igual proporção, apequena nossas margens de futuro. Se é o financiamento que pré-define o futuro, obrigatória deve ser a avaliação prévia da localização da atividade econômica pretendida, ou seja, da sua compatibilidade em termos territoriais, sociais e ambientais.

O agronegócio e seus interlocutores, governadores e bancada ruralista, resistem à medida porque prosperaram esse tempo todo na ausência de qualquer limite, convertendo nossos biomas em plataformas de exportação. O poder local no campo e nas áreas de fronteira erigiu-se à margem da lei ou contra ela. Trabalho escravo, pistolagem, redes de prostituição e pedofilia, contrabando, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e de drogas é o lado B das grandes monoculturas, hidroelétricas e mineradoras. Não há como desvincular o crime organizado dessas forças políticas e vice-versa.

A exclusão dos municípios da zona de transição entre o Cerrado e a Amazônia, para efeito da aplicação da portaria, significa uma rendição do governo frente a essas forças, capitaneadas pelo grupo/governo Maggi. O mesmo grupo que reivindica e se mobiliza no Congresso pela modificação da área da Amazônia legal e pela alteração da área mínima de reserva legal na Amazônia, entre outros arbítrios.

É mais uma prova de que o Carlos Minc já assumiu decapitado politicamente. Oferecida a cabeça da Marina de bandeja ao agronegócio, resta ao novo ministro a pirotecnia e a verborragia. Teatralizar os acordos já feitos e gerir residualmente a política ambiental que um governo prisioneiro de um modelo agroexportador e financeirizado pode ter.

"Licença para lá e unidades de conservação para cá", coreografa o ministro, assumindo que não há como deter a expansão das fronteiras agrícola, mineral e (hidro)elétrica, especialmente em direção à Amazônia. Muito menos haveria como rever os grandes projetos de infra-estrutura do PAC, que, em função dos oligopólios privados, estruturam essa expansão. Em troca disso, quer que nos contentemos com migalhas na forma de Unidades de Conservação, fragmentadas e descontínuas, que na verdade cumprem a missão de estoques de capital natural para exploração monopolista futura, de forma "sustentável".
Outras medidas de encomenda do agronegócio são a Medida Provisória 422, que legaliza os crimes sociais e ambientais do latifúndio; a liberação de áreas de fronteira para atividades de monocultivo; assim como a adoção de critérios obscuros para a regularização de áreas quilombolas e indígenas. Realmente o governo Lula parece disposto a fazer qualquer negócio em nome do agronegócio. E manda às favas as mediações de algum Brasil mais amplo que isso. Mesmo nas negociações internacionais, o "interesse brasileiro" vem se tornando sinônimo dos interesses comerciais dos barões da soja, do gado, da celulose, da cana e do algodão.

O Brasil, nas últimas negociações da Rodada de Doha, está sinalizando positivamente às indecorosas propostas da UE e dos EUA de redução drástica e linear das nossas tarifas industriais em troca de um maior acesso aos mercados agrícolas desses países.

Ao promover concessões isoladas na Rodada, o governo prontifica-se a enterrar as alianças sul-sul, que mal ou bem vinha fazendo, colocando (ex-)parceiros na parede, implodindo qualquer veleidade integracionista. Além disso, que consistência pode ter alguma política industrial com essa capitulação alfandegária anunciada? Qual abrangência e durabilidade de um desenvolvimento que segue a reboque os ciclos de produção e fornecimento das transnacionais?

Mais do que nunca em nossa história, a hipótese de Brasil, a possibilidade de um projeto nacional, se dá no enfrentamento desse modelo anti-nacional e anti-povo. Somente com nossas vozes e nossos corpos somados podemos travar o metabolismo voraz dos grandes negócios, como ensaiaram os povos do Xingu e como tem demonstrado a Via Campesina e demais movimentos de ocupação direta das áreas e instalações mercadorizadas ao custo da destruição da natureza e da miséria do povo. A viabilidade de qualquer projeto de transformação estrutural passa necessariamente pelo tensionamento e esgarçamento dos novos cercamentos do capital e de suas proto-legalidades.

A existência de espaços considerados "democráticos", em um cenário de opções únicas e incondicionais de desenvolvimento, só será alcançada e reconhecida no confronto, na polarização, no assumir destemido de que não abdicaremos de nossa condição de sujeitos coletivos portadores de um outro destino.


Luis Fernando Novoa Garzon é sociólogo, professor da Universidade Federal de Rondônia e membro do Fórum Independente Popular do Madeira.

E-mail:
l.novoa@uol.com.br

Biocombustíveis: mídia faz samba de uma nota só

Escrito por Valéria Nader
fonte: Correio da Cidadania

12-Jun-2008


Nesses tempos de crise alimentar, com preços subindo e comida faltando em várias partes do Globo, tudo isso em pleno século XXI, são várias as discussões que têm vindo à tona. Desde análises mais profundas até puras especulações, discorre-se sobre o aumento da demanda mundial por alimentos puxado pelo estrondoso crescimento de economias como a chinesa; o abandono da regulação sobre esse mercado, com o fim dos estoques reguladores e a prevalência dos interesses especulativos; e também a utilização crescente de terras para os cultivos destinados aos biocombustíveis, comprometendo assim a produção de alimentos.

Não é o objetivo aqui entrar no mérito específico dessa problemática, avaliando cada um desses determinantes. Análises com este enfoque vêm sendo trazidas corriqueiramente por este mesmo Correio, a exemplo, dentre vários outros, de entrevista recentemente concedida pelo geógrafo Ariovaldo Umbelino, da USP.
A preocupação maior é chamar a atenção para a forma como o assunto vem sendo tratado pelos meios de comunicação, particularmente no que se refere ao item supra-referido sobre os biocombustíveis, em função da abordagem que o tema mereceu nos últimos dias.
Em uma série de reportagens especiais sobre a fome em seu jornal das 22 horas, a Globonews apresentou, nos dias 6 e 7 de junho, relatos de especialistas e professores da USP, FGV e da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), focados no impacto do etanol na produção de alimentos em nosso país. A partir da exposição de uma série de dados e de uma caprichada apresentação de imagens, qual não foi a surpresa em perceber, nos dois dias, que as matérias haviam chegado aos seus finais e todos os especialistas tinham expressado a mesma opinião.

Citando as cifras relativas aos hectares que poderão ser ocupados pela cana comparativamente às terras agricultáveis e às outras culturas, foram unânimes esses especialistas em suas apreciações de que, no Brasil, sobram terras para o etanol a partir da cana. De forma alguma, portanto, essa cultura vai tomar o lugar dos alimentos. Vários entrevistados foram também peremptórios em afirmar que seria impossível a cana expandir-se pela Amazônia, em função dos custos muito mais elevados nessa região relativamente a outras localidades mais propícias à sua cultura.

Será que a emissora, em sua busca de estudiosos do ramo, deparou-se, coincidentemente, somente com portadores dessa visão? Difícil de acreditar em tal hipótese, pelo menos para aqueles que assistem aos seus programas de debate, usualmente com três entrevistados, onde parece existir um ‘perigoso’ consenso. Mas, de qualquer forma, somente a própria emissora para responder a essa questão.

Outros meios de comunicação de grande porte, por sua vez, a despeito de trazerem à luz concepções mais variadas, são também porta-vozes muito mais assíduos das idéias dos defensores dos biocombustíveis, particularmente o etanol. Artigo recentemente divulgado pela Folha de S. Paulo – 07/06/08, pág. A3, de Tendências e Debates -, de autoria do renomado físico e professor emérito da Unicamp Rogério César de Cerqueira Leite, é um dos exemplos nesse sentido, dentre vários outros que poderiam ser aqui citados e que foram circulados no mesmo espaço utilizado para o artigo de Cerqueira Leite. Nesse caso específico, o físico desenvolveu uma série de argumentações para se contrapor aos questionamentos que se levantam contra o etanol. No que concerne, por exemplo, à crítica de que ele possa invadir a Amazônia, Cerqueira Leite também acredita que as condições adversas do clima, do solo e da infra-estrutura da região, por si só, impediriam essa invasão.

Mesmo que, conforme salientado, o intuito dessas linhas não seja entrar no mérito e julgamento específico dos argumentos, vale destacar que, contrariamente ao que advogam os especialistas aqui citados,pesquisas da própria Embrapa alertam para um preocupante avanço da cana-de-açúcar no bioma amazônico. Ademais, em nenhuma das explicações ouvidas desses estudiosos, foi levantada a séria questão de que, se não é a cana que vai invadir e devastar a Amazônia, a pecuária já vem assumindo esse posto, na medida em que é empurrada pela comprovada expansão dos cultivos no sudeste.

Estariam alguns desses interlocutores procurados pela imprensa impregnados pelo espírito de nosso presidente, que, em seu périplo por vários países, vem fazendo uma veemente, para não dizer obstinada, defesa dos biocombustíveis? Segundo o presidente, a inflação de alimentos seria até mesmo um bom sinal, já que derivada da maior capacidade de consumo dos pobres.
Causalidades à parte, o que interessa é não perder de vista que um coro tão unânime não surge assim gratuitamente. Ainda que se possa imaginar, talvez ingenuamente, que os meios de comunicação ou os mandatários das nações não estejam atrelados a este coro de forma consciente, seguramente seguem um forte ‘movimento de manada’, que se ancora, cada vez mais, no indubitável poder do agronegócio.

Lamenta-se, nesse cenário, a enorme possibilidade de massificação da opinião pública, refém dos interesses dos grandes meios de comunicação e da impossibilidade de rompimento do cerco pelos veículos mais alternativos. Sem direito a um mínimo contraditório, poderá vir a respaldar mais uma das ‘questionáveis’ teorias de nossa economia – agora voltadas aos alimentos e à fome.


Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania.

III Mostra CineTrabalho


Aumento do preço dos alimentos continua e biocombustíveis são parte responsável, acusa Banco Mundial

Centenas de milhões de pessoas de todo o mundo poderão afundar-se na pobreza se o preço dos alimentos continuar a aumentar,diz o Banco Mundial, prevendo que a alta continuará nos próximos anos. A procura de biocombustíveis e sua produção são cada vez maiores, enquanto a produção alimentar diminui, o que tem impacto nos preços”, afirmou o economista-chefedo Banco Mundial, Justin Lin.
“A maioria dos afectados que agora vive sobre a linha da pobreza de um dólar por dia, ficarão abaixo dela. Isso é preocupante”, disse o vice-presidente da instituição, Danny Leipziger, na Conferência Anual sobre Economia para o Desenvolvimento (BDCDE, sigla em inglês).
Esta reunião foi organizada pelo Banco Mundial e pelo Departamento do Tesouro da África do Sul, tendo acontecido esta semana na Cidade do Cabo sob o lema “Gente, política e globalização”.
Os prognósticos de Leipziger, encarregado da Área de Redução da Pobreza e Administração Económica do Banco, diminuíram o optimismo exibido pela instituição no seu relatório “Fluxos mundiais de financiamento para o desenvolvimento 2008”. O estudo, divulgado também nesta semana, prevê que o crescimento económico da África subsaariana aumentará mais este ano. O documento, apresentado na BDCDE, conclui que a economia de várias regiões em desenvolvimento crescerá este ano, embora o crescimento mundial tenda a cair dos 3,7% de 2007 para 2,7%. Espera-se que o crescimento económico da África Subsaariana se acelere em uma média de 6,5% até o final deste não, o nível mais elevado da região em 38 anos.
Leipziger explicou que o encarecimento dos alimentos “quase não tem impacto ao nível macroeconómico, mas é visível e notório nos lares”. De todo modo, esses preços não continuarão aumentando para sempre, acrescentou. “Acabarão baixando. Segundo as nossas estimativas, vai demorar quatro a cinco anos até a situação ficar estabilizada. Mas, isso não significa que chegarão ao nível em que estavam há alguns anos”, acrescentou. As causas do aumento são múltiplas. O que dificulta a solução é que muitas delas estão interligadas, segundo Sheryl Hendriks, directora do Centro Africano para a Segurança Alimentar da Universidade KwaZulu Natal, da África do Sul. “A alta histórica do petróleo é uma dessas causas. Quando o combustível aumenta, os alimentos também sobem”, disse Hendriks na conferência, realizada entre segunda e quarta-feira desta semana.
Por outro lado, o auge dos biocombustíveis reduz o cultivo de alimentos, por isso o fornecimento não atende a crescente procura por comida. A situação agrava-se por causa dos subsídios que Estados Unidos e União Europeia dão à produção destinada à refinação de biocombustíveis e não à alimentação, segundo Lin. “Em consequência, o fornecimento de alimentos contraiu-se e não atende a procura, o que faz aumentar o seu preço”, afirmou Michael Spence, prémio Nobel de Economia e presidente da comissão sobre crescimento do Banco. “Não há nada de bom nestes subsídios”, ressaltou.
Os países em desenvolvimento – entre eles os africanos – são os mais afectados pela crise alimentar. Segundo Spence, “os lares de países pobres usam grande parte do seu rendimento em alimentos”. Mas a situação não é totalmente nefasta, acrescentou. “Há uma oportunidade enorme na África. Este continente é rico em recursos, se comparado com as outras regiões. A riqueza pode ser investida em programas que promovam a criação de trabalho e estimulem a produção agrícola”, afirmou. Lin alegou que é preciso mais. Para que a África aumente sua produção agrícola as novas tecnologias e a infra-estrutura são cruciais, “localizadas e adaptadas a cada país africano em particular. O que funciona no Brasil ou na China não funciona necessariamente em África”, disse.
Fonte: Envolverde/IPS

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Puta fábrica

de Efix y Jean-Pierre Levaray

144 páginas B/N, formato 165 x 240 mm, encuadernación rústica cosida
PVP: 14,50 euros (IVA incluido)
ISBN: 978-84-935829-3-7
Adaptación en cómic de Putain d'usine, novela de Jean-Pierre Levaray.

Treinta años de vida (y muerte) en la fábrica: los compañeros perdidos, los accidentes, el alcohol, las huelgas, los momentos de revuelta, la alegría del aperitivo con los compañeros...
Una fábrica que espera, como tantas otras, el cierre final, la externalización, la deslocalización. Y en medio de todo ello: esos obreros que siguen rompiéndose el espinazo por mantener encendidas las calderas y de los que ya nadie habla.
Jean-Pierre Levaray narra en esta obra algo que conoce demasiado bien: el trabajo en la fábrica, «esta vida perdida», «esta vida, ya de por sí corta, y que el curro te araña despacio»...
Y Efix la plasma con su dibujo en blanco y negro, duro, expresivo; perfecta combinación para describir el universo cerrado y agobiante que sufren miles de personas cada día.

Los autores
Jean-Pierre Levaray

trabaja desde hace más de treinta años en una fábrica de productos químicos de Grande-Paroisse, en Grand-Quevilly, cerca de Rouen. En febrero de 2002, cinco meses después de la explosión de AZF en Toulouse, publicó su primer libro Putain d’usine, que alcanzó unas ventas superiores a 10 000 ejemplares. Uno de sus principales objetivos es hablar del día a día: «El trabajo asalariado es demasiado mortífero. Lo sufrimos casi como una maldición y condiciona nuestra vida».

Las regiones mineras del norte de Francia son la tierra natal de Efix, que vivió varios años complicados antes de publicar Moorad, el primer tomo de la serie Mon Amie la Poof. En 2000 recibió el premio al mejor autor en el festival del cómic de Decines, cerca de Lyon. Un mes después publicó la serie con la editorial Petit à Petit, que también sacó K, une jolie comète y Les amis de Josy. En mayo de 2006 Efi x terminó el último tomo de Mon amie la Poof: había creado más de 400 láminas para llegar hasta su quinto tomo, Ivan.

UE amplia limite de jornada laboral para até 65 horas

Veja mais: http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=7154&Itemid=26

A União Europeia aprovou na madrugada desta terça-feira a extensão da semana de trabalho para além das 48 horas, um direito social consagrado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) há 91 anos.
Os ministros de Trabalho dos Vinte e Sete aprovaram, por maioria qualificada, a proposta da presidência eslovena que vai permitir a cada Estado-membro modificar a sua legislação para elevar a semana laboral de 48 horas até 60, em casos gerais, e até 65 para certos profissionais, como os médicos.

Segundo o ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Vieira da Silva, Portugal não fez parte da maioria que aprovou este projecto de lei. "Apesar de haver uma evolução positiva", a directiva deveria ser mais "equilibrada" e ter mais em conta "a salvaguarda das condições de saúde, higiene e segurança dos trabalhadores", disse. Para Vieira da Silva, a proposta contém alguns elementos com os quais Lisboa discorda, dando como exemplo a possibilidade de a semana de trabalho poder ultrapassar as 60 horas em caso de acordo colectivo, o que o ministro considerou "excessivo".

Na acta da reunião não constam as votações dos países. Mas numa declaração de cinco países contra o projecto, não apaprece o nome de Portugal.
De facto, segundo a agência Efe, Espanha, Bélgica, Chipre, Grécia e Hungria apresentaram uma declaração na qual dizem que não aceitam o texto pelo "retrocesso social" que esse representa.
O projecto de lei ainda precisa do aval do Parlamento Europeu.
A iniciativa de aumentar a jornada laboral estava paralisada há três anos pela oposição de países como França, Espanha e Itália, que exerciam a minoria de bloqueio. Com a chegada de Silvio Berlusconi ao poder, a Itália abandonou a frente de defesa desse direito social. Mais tarde, o presidente francês Nicolas Sarkozy fez um acordo com a Grã-Bretanha em que a França apoiava o aumento da jornada e Londres a reforma das agências de trabalho temporário, outra directiva que se discute paralelamente. A Espanha manteve a oposição à directiva que, segundo o ministro do Trabalho, Celestino Corbacho, representa uma regressão social.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

A CENTRALIDADE DA CLASSE TRABALHADORA
E A REVOLUÇÃO SOCIALISTA


DEBATEDORES:

CLAUS GERMER

UFPR, Espaço Marx Curitiba

MAURO IASI

Nucleo de Educação Popular 13 de Maio


RICARDO ANTUNES

UNICAMP, Revista Debate Socialista

CRONOGRAMA: PREPARAÇÃO PARA O DEBATE: Metodologia: Leitura e discussão prévia de textos dos autores. Elaboração de questões a serem enviadas previamente aos debatedores. Os textos estão disponíveis na pasta do Espaço Marx Curitiba localizada na Green House Copiadora, Rua Amintas de Barros, em frente à Reitoria da UFPR.

Dias 16 e 23 de junho de 2008

Local: Reuniões do Espaço Marx

Reitoria (UFPR), 19h00, 8º ANDAR.



DEBATE: Metodologia: O debate constará de dois blocos iniciais de intervenção. No primeiro, haverá exposição da temática em tela pelos debatedores. No segundo, serão comentadas as questões levantadas nos momentos de preparação para o debate. Cada bloco será composto de falas de 20 minutos para cada debatedor. Por fim, haverá um terceiro bloco, com as questões levantadas pelos participantes.


Dia 25 de junho de 2008

Local: Anfi 100

Reitoria (UFPR), 19h00, 1º ANDAR.


Realização Espaço Marx Curitiba

FAO: mais livre comércio, mais fome

Escrito por Esther Vivas

No Dia 5 de maio, terminou a Cúpula de Alto Nível sobre Segurança Alimentar da FAO (Organização para Alimentação e Agricultura da ONU), que foi celebrada neste dias em Roma. As conclusões do encontro não indicam uma mudança de tendência nas políticas que vêm sendo aplicadas nos últimos anos e que têm conduzido à situação de crise atual.
As declarações de boas intenções e as promessas de milhões de Euros para acabar com a fome no mundo realizadas por vários governantes não vão pôr fim às causas estruturais que têm gerado essa crise. Além disso, as propostas realizadas pelo Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, de aumentar em 50% a produção de alimentos e rechaçar as limitações impostas à exportação por parte de alguns países afetados parecem reforçar mais as causas da crise do que conduzir a saídas reais que garantam a segurança alimentar da maioria das populações no Sul.

O monopólio de determinadas corporações multinacionais de cada um dos trechos da cadeia de produção de alimentos, desde as sementes passando pelos fertilizantes até a comercialização e distribuição do que comemos, é algo que não se tratou nessa cúpula. No entanto, e apesar da crise, as principais companhias de sementes, Monsanto, DuPont e Syngenta, reconheceram um aumento crescente de seus lucros e o mesmo ocorreu com as principais indústrias de fertilizantes químicos. As maiores empresas processadoras de alimentos como Nestlé ou Unilever também anunciaram um aumento em seus lucros, embora abaixo dos lucros das empresas que controlam os primeiros trechos da cadeia. Do mesmo modo, as grandes distribuidoras de alimentos como Wal-Mart, Tesco ou Carrefour afirmam seguir aumentando seus lucros.

Os resultados da cúpula da FAO refletem o consenso alcançado entre a ONU, o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) para manter políticas econômicas e comerciais de dependência Sul-Norte e de apoio às multinacionais da agroalimentação. As recomendações lançadas a favor de uma maior abertura dos mercados no Sul, de subsidiar as importações de alimentos a partir da ajuda ao desenvolvimento e a aposta por uma nova revolução verde apontam nesta direção.
Aqueles que trabalham e cultivam a terra, nas mãos de quem deveria estar nossa alimentação, os camponeses e as camponesas, foram excluídos do debate. Quando representante de organizações camponesas tentaram apresentar suas propostas, coincidindo com a abertura oficial da cúpula, foram retirados à força. Em reuniões anteriores de alto nível, havia sido permitida uma maior participação dos coletivos sociais e agora, diante da gravidade da situação, as portas se mantiveram fechadas, como denunciou a rede internacional Via Campesina.
Acabar com a situação de crise implica pôr um fim no modelo de agricultura e de alimentação atual que coloca os interesses econômicos de grandes multinacionais acima das necessidades alimentares de milhões de pessoas. É necessário abordar as causas estruturais: as políticas neoliberais que vêm sendo aplicadas de forma sistemática nos últimos 30 anos, promovidas pelo BM, FMI, e pela Organização Mundial do Comércio (OMC), com os Estados unidos e a União Européia à frente. Políticas que significam liberalização econômica em escala global, abertura sem freio dos mercados, privatização de terras dedicadas ao abastecimento local e sua reconversão em monocultivos de exportação, conduzindo-nos à grave situação de insegurança alimentar atual. Segundo o BM, calcula-se que a cifra de 850 milhões de pessoas que hoje padecem de fome aumentará nos próximos anos até 950.
A saída para a crise passa por regular e controlar o mercado e o comércio internacional; reconstruir as economias nacionais; devolver o controle da produção de alimentos às famílias camponesas e garantir seu acesso livre à terra, às sementes, à água; tirar a agricultura dos tratados de livre comércio e da OMC; e pôr um fim na especulação com a fome.
O mercado não pode resolver o problema. Diante das declarações do número dois da FAO, José Maria Sumpsi, afirmando que se trata de um problema de oferta e de demanda, devido ao aumento do consumo em países emergentes como Índia, China ou Brasil, há de se lembrar que nunca antes se havia dado uma maior produção de comida no mundo.
Hoje se produz três vezes mais que nos anos sessenta, enquanto a população mundial somente duplicou desde então. Não há uma crise de produção de alimentos e sim uma impossibilidade de acesso aos mesmos por parte de amplas populações que não podem pagar os preços atuais. A solução não pode ser mais livre comércio porque, como se tem demonstrado, mais livre comércio implica mais fome e menor acesso aos alimentos. Não se trata de colocar mais lenha na fogueira.

Tradução: ADITAL

Novedades en la Biblioteca Virtual gratuita de EUMEDNET

En este mensaje se ofrece acceso al texto completo de cuatro nuevos libros y 28 artículos publicados en la Enciclopedia y Biblioteca Virtual de www.eumed.net del 20 de mayo al 10 de junio de 2008.
Para acceder directamente a esos textos, gratis y sin necesidad de inscripción, utilice las direcciones web que se indican más abajo, en este mensaje.
TODOS LOS LIBROS DE NUESTRA BIBLIOTECA VIRTUAL SON ACCESIBLES GRATUITAMENTE DESDE www.eumed.net/libros/

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EUMEDNET es un grupo de investigación de la Universidad de Málaga que hace divulgación de ciencias sociales a través de Internet sin fines de lucro. Gracias a subvenciones y apoyos de organismos públicos podemos ofrecer a precio inferior al coste unos CD-ROM y DVD-ROM que pueden adquirirse directamente a través de Internet en nuestra tienda virtual: http://www.eumed.net/tienda/
* EJES: Gran Biblioteca de las Ciencias Empresariales, Jurídicas, Económicas y Sociales
* EMVI: Enciclopedia Economía Multimedia Interactiva
* HESLA: Biblioteca Selecta de la Historia Económica y Social de Latinoamérica
* BSMEX: Biblioteca Selecta de Política, Historia, Economía y Sociedad de México

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Nuevos textos introducidos en la Enciclopedia y Biblioteca Virtual de EUMEDNET del 21 de mayo hasta hoy.
En la "Biblioteca Virtual de Ciencias Jurídicas, Económicas y Sociales"

394

Cooperación y conflicto en el Mercosur
Coordinadora: Noemí B. Mellado
393
Manuel Cienfuegos Mateo y otros

392
Julio Mario Orozco Africano

391
Francisco José Calderón Vázquez

TODOS LOS LIBROS DE NUESTRA BIBLIOTECA VIRTUAL SON ACCESIBLES GRATUITAMENTE DESDE
www.eumed.net/libros/
En la revista: "Contribuciones a las Ciencias Sociales"
ISSN: 1988-5245

Adrián López
Francisco José Calderón Vázquez
o Nota sobre el Concepto “Periferia”

Alberto Prieto Rodríguez

En la revista: "Contribuciones a la Economía"
ISSN 1696-8360



Jose L Moran

Yanet Jimenez Rojas


Yunier Rojas Bazail
o Japón: una sociedad conmocionada
Oficina Económica y Comercial de España en Tokio
o Guía País JAPÓN


En la revista: "Desarrollo Local Sostenible" (Número 2)
ISSN 1988-5245


Editorial


José Gpe. Vargas Hernández
Carlos Barrios Napurí
Patricio Quizhpe Cordero
Lorena G. Coria, Silvia I. Alegre y Gonzalo Valencia
Yaima Sarría Pablo y Francisco Ángel Becerra Lois
En la revista: "Observatorio de la Economía Latinoamericana" (Número 98)
ISSN 1696-8352


Lilian Sonia Loayza Ojeda, Alberto Samuel Rojas Cordero y Daney David Valdivia Coria
Perspectivas del entorno macroeconómico para algunas variables fundamentales en Bolivia
Ricardo Tito Atahuichi Salvatierra
El proyecto de constitución y la visión liberal


Cuba

Onelia Rosa Diez Valladares, Yureidys García Leonard y Omayda Ortiz Sarria

La elección de compra de bienes agrícolas en los Consejos Populares de la región de Cienfuegos: estudio comparativo

Eduardo Julio López Bastida y Mileisy Balbis Morejón

Gestión para el desarrollo local sostenible en Granjas Agroindustriales y Empresas Azucareras del MINAZ de la provincia de Cienfuegos

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Ameaçados pela FOME e pela falta de líderes

Foram três dias de discussão inútil sobre a fome mundial na Cúpula sobre Segurança Alimentar, terminada ontem. Se depender da FAO, braço da ONU para Alimentação e Agricultura, que organizou a reunião em Roma dos bem nutridos debatedores, 832 milhões de pessoas vão continuar passando fome no mundo e outros 2 bilhões entrarão logo para o rol dos famintos.
É a tragédia anunciada do neoliberalismo. Não se pode deixar por conta exclusiva do mercado o problema da segurança alimentar, mas quase metade da população da terra vai ter que passar fome para que os dirigentes das nações reaprendam essa verdade sabida desde a década de 1930, quando o economista britânico John Maynard Keynes ensinou ao presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, a forma de sair da crise econômica desencadeada pela “sexta-feira negra” da Bolsa de Nova York.
O ouro e outros metais já serviram de lastro para a moeda. Isso terminou quando foi preciso, na década de 1970, tirar os Estados Unidos de uma de suas crises capitalistas periódicas. Hoje o único lastro para a moeda é a confiança, uma commodity cada vez mais rara no mercado.
Seria mais inteligente que, em vez de dólares, servissem de lastro bens que pudessem ser estocados e cuja produção se quisesse aumentar. O trigo, por exemplo – ou qualquer outro alimento.
Talvez assim a ONU pudesse tomar o problema em suas mãos e dizer aos agricultores: vocês podem produzir “x” toneladas de trigo por ano e, se não venderem no mercado, por excesso de produção, vamos comprar para estocar. Ou então vocês mesmos estocam a seu risco e o governo de seu país financia a estocagem. Com isso, a produção do trigo no mundo continuaria aumentando de uma maneira equilibrada com o potencial de crescimento da demanda. O mesmo para outros produtos.
Talvez assim pudéssemos sair do círculo vicioso que se observa hoje, quando, em épocas de muita produção o preço cai. No ano seguinte, os fazendeiros – ou as empresas agrícolas, como virou moda hoje – estarão desestimulados para produzir aquele bem, há escassez no mercado e o preço sobe, estimulando de novo a produção... É uma situação idiota, que vai de uma crise a outra enquanto milhões de pessoas passam fome no mundo e os especuladores ganham com a escassez.
Não é preciso ter um governo forte agindo sobre a economia, como nos anos 70, para que esse sistema funcione bem no Brasil. Os Estados Unidos, desde o princípio da década de 1930, por sugestão de Keynes, vinham fazendo estocagens estratégicas para os produtos agrícolas, e com isso conseguiram ter a maior produtividade agrícola do mundo. O agricultor tinha horizonte pela frente, pois sabia que podia produzir um ano depois do outro e vender para o mercado ou para o governo. Mas o neoliberalismo chegou para enfraquecer o governo e para fortalecer os especuladores também nessa área básica da economia.
Além disso, como alertou Fritjof Capra em “O Ponto de Mutação”, as grandes companhias agropecuárias arruínam o solo de que depende nossa própria existência, perpetuam a injustiça social e a fome no mundo, e ameaçam seriamente o equilíbrio ecológico global. Uma atividade que era originalmente dedicada a alimentar e sustentar a vida converteu-se num importante risco para a saúde individual, social e ecológica.
Há mais de duas décadas, esse físico preocupado com a saúde da terra dizia que embora a biomassa seja um recurso renovável, o solo onde ela cresce não é. Certamente podemos esperar uma significativa produção de álcool a partir da biomassa, incluindo o cultivo de plantas para esse fim, mas um programa maciço de álcool para alimentar as necessidades atuais de combustível líquido esgotaria nossos solos no mesmo ritmo em que estamos hoje exaurindo o carvão, o petróleo e outros recursos naturais.
E não resolve tentar recuperar o solo com fertilizantes e outros produtos químicos, pois eles são desastrosos para a saúde do solo e das pessoas. Eles perturbam o equilíbrio do solo. Por exemplo, reduzindo a quantidade de matéria orgânica e a capacidade do solo para reter a umidade. O conteúdo do húmus é exaurido e a porosidade do solo diminui. Este fica duro e compacto, o que obriga os agricultores a usar máquinas mais poderosas, compactando mais ainda o solo. Por sua vez, o solo estéril fica mais exposto à erosão provocada pelo vento e pela água.
Tanto isso é verdade que, em 1976, dois terços dos condados agrícolas dos Estados Unidos já eram considerados áreas de calamidade devido à seca e, nos 25 anos anteriores, metade do solo arável em Iowa havia desaparecido. O uso maciço de fertilizantes químicos afetou seriamente o processo natural de fixação do nitrogênio ao danificar as bactérias do solo envolvidas nesse processo. Por conseqüência, as culturas estão perdendo sua capacidade de absorver os nutrientes do solo e ficando cada vez mais viciadas em produtos químicos sintéticos.
O problema se agrava quando amplas extensões de terras agricultáveis são ocupadas pela monocultura. Por exemplo, pelos canaviais. As usinas tentam manter a produtividade, usando mais e mais fertilizantes e agravando mais e mais a situação. O uso excessivo de fertilizantes químicos resulta em enorme recrudescimento de pragas e doenças, que os agricultores contra-atacam pulverizando as áreas plantadas com doses cada vez maiores de pesticidas. Ou seja, combatem os efeitos do abuso de produtos químicos pelo uso de mais produtos químicos. Eles e seus solos ficam mais pobres e os fabricantes de produtos químicos mais ricos. O uso maciço de pesticidas começou em fins da década de 1940, e desde então as perdas de safras causadas por insetos dobraram. As culturas são agora atacadas por novos insetos que se transformaram em pragas cada vez mais resistentes a novos inseticidas.
Diante de um quadro desses e da falta de líderes mundiais (alguém ainda acha que o presidente do Brasil é um líder capaz de contribuir para a solução do problema?), qual o espanto em que a Cúpula sobre Segurança Alimentar tenha sido um fracasso? No fim da reunião, o chanceler italiano, Franco Frattini, admitiu: "Se os líderes mundiais não conseguem pôr-se de acordo ao menos para evitar os danos de uma situação dramática de emergência alimentar, isso me preocupa".
Ainda bem que há alguém preocupado com isso...


06.2008

Movimentos sociais decepcionados com reunião da FAO

Cerca de 900 representantes internacionais de camponeses, pescadores, pastores e povos indígenas e ainda ONG expressaram a sua decepção pelos escassos resultados da Conferência sobre Segurança Alimentar da ONU em Roma. Durante o mesmo período, os movimentos sociais celebraram o seu próprio fórum "Terra Preta" para expressar as suas reivindicações para se alcançar a soberania alimentar e o direito à comida
para os milhões de pessoas que passam fome no mundo.
"A declaração final não chegará a lado nenhum. As recomendações de mais liberalização provocarão mais violações do direito à alimentação" criticou Maryam Rahmanian da organização iraniana CENESTA."As organizações da sociedade civil estão alarmadas com as recomendações da nova Força da ONU sobre a Crise Alimentar, formada por agências das Nações Unidas, o Banco Mundial e o FMI. (...) esta recomendou abrir mais os mercados do sul, subvencionar as importações de alimentos com ajuda ao desenvolvimento e uma nova Revolução Verde. Essas soluções (...) seriam um obstáculo sério para a soberania alimentar do sul global", referiu.
"As reivindicações dos movimentos sociais de mais protecção e apoio aos produtores de pequena escala sustentável, de reforma agrária e de medidas concretas contra a especulação financeira, foram totalmente ignorados pelos governo, afirmou Herman Kumara do Fórum Mundial dos Pescadores, Sri Lanka. "É uma grande decepção que os governos não reconheçam que a crise actual é resultado de décadas de ajuste estrutural que violou sistematicamente o direito à alimentação, disse Flavio Valente da FIAN Internacional. "Este é um passo atrás. Em 2004, todos os estados membros da FAO adoptaram o direito à alimentação".
"É uma vergonha que alguns governos não impeçam as companhias internacionais processadoras de sementes, grãos e alimentos de aproveitar a crise alimentar para aumentar os seus benefícios", expressou Dena Hoff, da Coligação dos Agricultores Familiares dos EUA, membro da Via Campesina. "No primeiro trimestre de 2008, os benefícios da Monsanto aumentaram cerca de 108%, enquanto que a Cargill registou um aumento de 86%. Uma nova Revolução Verde e mais ajuda em alimentos ajudarão essas empresas, mas não serão nenhuma solução para os mais pobres e esfomeados".
Fonte: esquerda.net

Em Presidente Prudente:

Convite para o Seminário de Erradicação do Trabalho Infantil, para que participem e repassem a rede de contatos de vocês.
Lembramos que discutir trabalho infantil significa acima de tudo, resignificar o mundo do trabalho para as nossas crianças e adolescentes, e, contribuir para uma mudança cultural em nossa sociedade. É, repensar o ciclo vicioso que atribuem às famílias empobrecidas menos ou nenhuma oportunidade de escolha, dando as mesmas a perpetuação de sua situação. Romper com tal prática que as colocam em situação de vulnerabilidade é tarefa fundamental para a sociedade e, portanto, de responsabilidade de todos.
Participem!


Cana: maldição e bênção

Nada menos do que cinqüenta chefes de estado participaram nesta semana da reunião promovida pela FAO, em Roma, para tratar da crise mundial de alimentos. Lula esteve presente e sua enfática defesa do etanol brasileiro teve ampla repercussão.

No esforço de mostrar que a produção de etanol a partir da cana não compromete a produção de alimentos e nem ameaça a preservação da Amazônia, as duas acusações mais freqüentes contra o álcool brasileiro, Lula apontou diversas causas que incidem sobre a agricultura, provocando a atual crise. Em primeiro lugar, a alta injustificável do petróleo com sua repercussão no preço dos insumos e do transporte. Depois, a especulação dos mercados financeiros em cima dos estoques de alimentos e o aumento de consumo de países que estão melhorando a condição de vida de suas populações, entre os quais estão a China, a Índia e o Brasil. E não deixou de fustigar de novo "as absurdas políticas protecionistas na agricultura dos países ricos".

A propósito deste último fator, os dados são de fato estarrecedores. Em 2006, os países ricos do primeiro mundo empenharam 372 bilhões de dólares em subsídios a suas agriculturas. O diretor da FAO, Jacques Diouf, ressalta o absurdo da situação atual: bastariam 30 bilhões de dólares para acudir A fome de 862 milhões de famintos, enquanto se gasta doze vezes mais em subsídios para proteger a agricultura dos países ricos!

Se fica difícil entender a razão destes subsídios, ao menos eles acabam mostrando quanto a agricultura é estratégica para um país. Ela não pode ser reduzida a um simples negócio, como qualquer outro. A política agrícola precisa fazer parte do projeto nacional de cada país. Ela precisa fazer parte de um projeto global de sobrevivência da humanidade.

No que se refere à cana, para agora enfocar um assunto muito brasileiro, e para a diocese de Jales muito atual e urgente, pois ela vem vindo a galope para esta região, importa olhá-la com discernimento e equilíbrio.

Não podemos nem demonizar a cana, como se ela fosse totalmente perversa, nem canonizá-la como se fosse imune a qualquer inconveniente. A cana tem muitas virtudes, que precisamos reconhecer, mas traz consigo muitos riscos, que devem ser evitados.

Entre as virtudes da cana, está sua grande capacidade natural de absorver os ingredientes da natureza. É um produto robusto, que se dá bem com a terra, o calor e a chuva. E tem um potencial fabuloso de aproveitamento, em forma de açúcar e álcool.

Não estranha, portanto, que encontre facilidade de cultivo. O interesse pela cana aumentou extraordinariamente com a crise ambiental e a escassez de combustíveis fósseis, contexto que propicia à cana muitas vantagens como alternativa de combustível limpo e renovável.

Mas a cana traz consigo alguns sérios riscos, que precisam ser bem ponderados. O primeiro deles é a exploração do trabalho humano, sobretudo dos cortadores de cana. A produção de álcool combustível não pode, de maneira nenhuma, implicar o retorno das condições de trabalho dos tempos da revolução industrial, quando a sede de lucro levava a exaurir as forças dos trabalhadores, que em poucos anos de trabalho perdiam sua saúde e comprometiam sua vida. É urgente uma profunda reversão da situação em que vivem hoje os cortadores de cana nas grandes usinas de álcool em nosso país.

Outro risco da cana é sua tendência à monocultura. Pela padronização da tecnologia do seu plantio e de sua colheita, e pelos grandes capitais implicados na produção do álcool, surge facilmente a tentação de desistir de outros cultivos, para deixar que a cana tome conta de todas as lavouras. Isto mostra a urgente necessidade de uma política agrícola municipal que limite o espaço da cana para garantir outros cultivos, que devem ser apoiados e incentivados.

Neste contexto, encontra espaço a indispensável preocupação pela prioridade da agricultura na produção de alimentos, que não pode faltar em qualquer debate sobre o uso da cana para a produção de etanol.

Estas breves considerações só acenam para a necessidade de aprofundar a reflexão para equacionar com equilíbrio nossa preocupação com a produção de alimentos, a crise ambiental e as alternativas energéticas. A cana tem o mérito de mostrar a urgência deste debate.


D. Demétrio Valentini é bispo de Jales.

fonte: Correio da Cidadania

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Elite brasileira é ecologicamente inviável

São Paulo, sexta-feira, 06 de junho de 2008


Impacto de classes A e B sobre o ambiente no país é comparável ao dos EUA, mostra estudo de ONG


LUCAS FERRAZ
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a organização não-governamental WWF-Brasil divulgou pesquisa em que alerta: se toda a população mundial adotasse padrão de consumo semelhante ao das classes A e B brasileiras, seriam necessários três planetas para suprir todos os recursos utilizados.
De acordo com a pesquisa, a elite brasileira tem hábitos insustentáveis ambientalmente e exercem uma má influência ao servir como modelo de aspiração de
consumo para as classes emergentes. "Afinal, todos querem ter e consumir como as classes A e B",afirma Irineu Tamaio, coordenador do programa Educação para Sociedades Sustentáveis do WWF.
Intitulado "Tendências e Hábitos do Consumo dos Brasileiros", o trabalho,realizado em parceria com o Ibope, tem o objetivo de despertar a sociedade e fazê-la pensar em mudanças nos hábitos e padrões de consumo, afirma o WWF.
O Ibope realizou a pesquisa em 142 municípios de todas as unidades da Federação, no período entre os dias 13 e 18 de maio. Foram entrevistadas 2.002 pessoas. A margem de erro, segundo o instituto, é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Carro e banho
Uma parcela de 13% dos entrevistados diz que o carro é o único meio de transporte. E as classes A e B gastam mais tempo no banho, também -mais de 20 minutos, para 13%, segundo o levantamento do WWF. Samuel Barreto, coordenador do programa Água para a Vida do WWF, afirma que, se esse tempo fosse reduzido pela metade, poderia ser economizada água suficiente para abastecer, por um dia, uma cidade com mais de seis milhões de habitantes (o município de São Paulo tem 11 milhões).
"Isso, em uma projeção baixa, com um gasto por minuto de três litros de água por pessoa", disse. A ONU (Organização das Nações Unidas) recomenda que cada habitante use 200 litros de água para higiene pessoal, o que não inclui apenas o banho. "As ações individuais, se comparadas em escala, têm impacto ambiental muito grande", completou.
O WWF, contudo, fez questão de ressaltar que não é contra o consumo em si, que ajuda a aquecer a economia. "É preciso mudar o hábito. A informação é muito importante, pois pequenas mudanças são essenciais para se chegar a um padrão sustentável", afirmou Denise Hamú, secretária-geral da organização.
Segundo ela, é preciso investir nas mudanças dos hábitos da população, principalmente quando se analisa padrão de consumo -cada vez mais crescente- dos quatro principais países emergentes: Brasil, China, Rússia e Índia.
"Se continuarmos com esse modelo, chegaremos ao colapso", resumiu Irineu Tamaio.
Se toda a população mundial consumisse como a média dos cidadãos dos Estados Unidos, país que mais consome e que ocupa o topo da lista de nações insustentáveis do ponto de vista do consumo, seriam necessários cinco planetas. Os EUA são, de longe, o maior emissor per capita de gases do efeito estufa. Em contrapartida, se todos adotassem o padrão da Somália, na África, sobrariam recursos naturais e não seria necessário nem ao menos um planeta -o índice seria de 0,22.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Floresta ideológica

Para historiador do ambiente, significados antiquados sobre a Amazônia estão entranhados na opinião pública brasileira

ERNANE GUIMARÃES NETO DA REDAÇÃO

A Amazônia brasileira vive uma crise de identidade, pois é hoje uma região com significados conflitantes: última fronteira agrícola, área de risco para a soberania nacional, tesouro biológico, plataforma das novas ciências. Para o especialista em história ambiental José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o melhor futuro do Brasil e do mundo depende da substituição dos velhos significados pelos novos. Esses significados têm implicações no debate político -por exemplo, quando congressistas propõem alterar a reserva legal (percentual mínimo de floresta a ser preservado em propriedades rurais) na região, de 80% para 50%. A "revolução científica" na floresta, defendida pela Academia Brasileira de Ciências em seu manifesto "Amazônia - Desafio Brasileiro do Século 21", que tem conseqüências no orçamento para pesquisa e educação, se baseia em novos entendimentos sobre o que significa a região. E, na floresta amazônica, o conflito retórico ganha contrapartida material envolvendo índios, caubóis, estrangeiros e armas. Para o autor de "Um Sopro de Destruição" (ed. Jorge Zahar) o clima de faroeste na região mostra não só a baixa atuação do Estado como a necessidade de pensar a Amazônia de uma maneira atualizada. Pádua também aponta como engano a posição daqueles que, ao invés de louvarem o estabelecimento de reservas indígenas como garantia de preservação ambiental, fomentam teorias conspiratórias relacionadas à soberania nacional. "O vale-tudo e a ilegalidade predatória são as grandes ameaças à segurança da região, não as reservas indígenas."

FOLHA - O poder público está ausente da Amazônia brasileira?
JOSÉ AUGUSTO PÁDUA - Isso é consensual. É fundamental a imposição do Estado de Direito e, mais ainda, de um novo modelo de ocupação, não a repetição de modelos tradicionais da história brasileira. A grande questão de fundo sobre a Amazônia é um conflito de significado: o que significa essa região no Brasil e no contexto planetário? Não há dúvida de que a consolidação de um território tão grande e unificado, desde o período colonial, é uma realização histórica impressionante. Mas a Amazônia aparece com muita força, quando se pensa o futuro da Terra, por quatro razões que não estavam colocadas tradicionalmente. Em primeiro lugar, há a biodiversidade -tanto em termos científicos quanto econômicos, com a biotecnologia. Depois, a água doce -questão mais imediata e urgente, pois já se desenha escassez de água, com potenciais conflitos por acesso a ela. Também o clima -tanto o que a Amazônia representa em termos de armazenamento de carbono quanto sua influência sobre o sistema de chuvas. Mais de 60% do vapor de água para as chuvas do Brasil vem da floresta, portanto a Amazônia é fundamental para a agricultura do Brasil como um todo. E a biomassa, uma das alternativas mais concretas para um mundo pós-petróleo. Tradicionalmente, a Amazônia seria uma última fronteira, conquistada passo a passo, principalmente por pecuária e agricultura. Muitos dos atores sociais que estão presentes no caldeirão social da Amazônia continuam tendo esse significado na cabeça.

FOLHA - Quem são?
PÁDUA - Mais do que tudo os pecuaristas. Houve uma explosão do gado bovino na Amazônia. De 37 milhões de cabeças em 1996 para 76 milhões em 2006, crescimento muito maior do que a média nacional [que esteve próxima de 30%]. Muitos atores -pecuaristas, fazendeiros e políticos ligados a esses setores- têm uma visão muito antiga. É necessário que haja uma revisão do que significa a Amazônia planetariamente, o tesouro que as vicissitudes da história colocaram em nossas mãos.

FOLHA - Com a palavra "planetariamente", o sr. quer dizer que a Amazônia não é só do Brasil?
PÁDUA - Não vejo garantia de ganho ambiental com a internacionalização da Amazônia. A performance ambiental de países poderosos no atual cenário não é positiva, e a ONU não tem tido a capacidade de evitar, por exemplo, a falta de responsabilidade dos EUA ao não assinarem o protocolo de Kyoto. Não existe um questionamento sério da soberania do Brasil ou dos outros países da região a respeito da Amazônia. Há eventualmente declarações levianas. Há paranóia e muita ideologia.

FOLHA - Que ideologia?
PÁDUA - Há uma confluência de interesses muito locais, como aqueles dos arrozeiros, por exemplo, e de visões paranóicas (mesmo que às vezes sinceramente patrióticas). Aqueles não teriam tanta relevância se não fosse pelo cultivo dessa visão da internacionalização, especialmente pelos meios militares. Não descarto a possibilidade de uma ameaça desse tipo acontecer no futuro distante, em um contexto de grande deterioração e ruptura da ordem internacional. Alguns analistas pensam que as conseqüências do aquecimento global poderiam ser um fator importante na manifestação desse cenário altamente negativo. A preocupação com a defesa do território e do tesouro que é a Amazônia é razão para o fortalecimento das Forças Armadas -a região precisa de mais Estado, não menos. Mas é lamentável a obsessão de muitos setores das Forças Armadas por terras indígenas, como se essas fossem a grande ameaça à soberania. Há problemas maiores, como o narcotráfico, o contrabando, guerrilhas dos países vizinhos, prostituição infantil, desrespeito à legislação ambiental.

FOLHA - Estamos vivendo o nosso faroeste, como ocorreu na expansão dos EUA?
PÁDUA - É importante esse paralelo: o processo de imposição do Estado de Direito no Velho Oeste americano teve atuação forte e determinada do Estado. Por exemplo: o desarmamento do Velho Oeste não aconteceu por obra do acaso. Foi um processo político de imposição do Estado de Direito numa região de fronteira onde a violência era privada e descontrolada.

FOLHA - É possível o desenvolvimento dessa região sem agressão ambiental?
PÁDUA - É possível buscarmos ao máximo os modelos alternativos, dentro de uma ordem nacional que garanta a soberania. O "pulo do gato" é a mudança de mentalidade. Concordo com o documento da Academia Brasileira de Ciências, segundo o qual é preciso um investimento enorme em ciência e tecnologia, que faça jus à dimensão ecológica da região. Mas o caminho não vai ser atingido reproduzindo modelos do passado. Hoje, para cada ser humano na Amazônia, já há 3,5 cabeças de gado.

FOLHA - Que tendências precisam retroceder na Amazônia? Algumas comunidades indígenas têm grandes rebanhos [na casa das dezenas de milhares de cabeças], não?
PÁDUA - Há pecuária nas áreas indígenas. Mas não chega aos pés do que há fora delas. Há o que não pode retroceder: retroceder de 80% para 50% da propriedade a terra que deve ser reserva legal seria uma catástrofe. Essa legislação sinaliza o futuro, "só 20% podem ser utilizados com os velhos métodos". Novos métodos não ficam imobilizados. A pecuária precisa retroceder. É mais apropriada para biomas mais abertos, como caatinga, cerrado e pampa. A Amazônia precisa crescer com o rumo da economia do conhecimento, dar o salto para o futuro, não replicar o que se fez na Mata Atlântica. Não é idiossincrasia de Lula fazer demarcação contínua: vem da Constituição de 1988. Essa política tinha diferentes objetivos. Um tem a ver com os direitos dos índios. Apesar das dificuldades, o aumento da população indígena é um indicador de que a demarcação das terras vem tendo resultados. Mas há uma outra agenda: é uma política de reorganização de fronteira e de reapropriação pelo poder público das terras da Amazônia, onde ocorreu durante o regime militar um processo descontrolado de privatização de terras. Os maiores países florestais do planeta, como o Canadá e a Rússia, têm controle muito maior sobre suas massas florestais do que o Brasil. O Estado cede o uso em regime de concessão. No Brasil houve uma privatização muito grande. Praticamente 36% da Amazônia é de terras privadas. Delas, só 4% têm títulos de propriedade com registro válido. Há uma anarquia, uma quantidade enorme de grilagem.

FOLHA - Trata-se de uma "privatização gratuita"?
PÁDUA - Gratuita e ilegal. Quando se determina que cerca de 20% das terras da Amazônia serão terras indígenas, existe essa agenda implícita, que muitas vezes não fica clara para a opinião pública. É a criação de reservas ecológicas, de áreas onde o Estado tem maior presença. A demarcação passou por todos os rituais que a lei prevê, de forma que isso deveria ser considerado um ponto muito positivo do Brasil no debate ambiental internacional. Cerca de 14% da Amazônia já está demarcada como reserva indígena, o que representa uma conquista bastante rápida -da Constituinte para cá. Acho curioso que a diplomacia brasileira, ao invés de usar isso como um "ativo", adote uma postura quase defensiva sobre o assunto. A sociedade brasileira deveria ver essas reservas também como ambientais. Hoje há várias propriedades com mais de 1 milhão de hectares. Se um proprietário faz um acordo com o narcotráfico, é muito mais difícil o Estado controlar essas terras do que as indígenas, onde o Exército entra sem pedir licença, pois, por definição, são terras do Estado.

FOLHA - Como o sr. analisa o conflito, no governo, entre as demarcações e o desenvolvimentismo?
PÁDUA - Esse conflito é em grande parte ideológico, produzido na confluência de interesses nacionais, de desenvolvimento ou soberania, e interesses locais, pequenos, de atores que querem lucrar -os políticos locais usam isso como argumento eleitoral. Vejamos um exemplo forte: protesta-se que Roraima vai ter 43% de seu território em reservas. Em primeiro lugar, é preciso perceber o estatuto especial desses novos Estados [Roraima e Amapá], criados pela Constituição de 1988. Alguns analistas consideram que foi precipitada a transformação desses territórios em Estados. Foi decisão legítima, não há o que contestar. Mas há uma situação socioeconômica especial, com o Orçamento praticamente todo de recursos federais. Mesmo assim, os 57% restantes são um território muito grande -há nove Estados brasileiros menores do que essa área. Não há como dizer que as reservas irão impedir o desenvolvimento do Estado.

FOLHA - Como vê os debates relacionados, por exemplo, à instalação de usinas elétricas?
PÁDUA - Esses debates são positivos para o desenvolvimento sustentável do país. A discussão democrática sobre determinada obra pública -por exemplo, uma represa com conseqüências ambientais e sociais grandes- não é um entrave, mas, sim, um aperfeiçoamento do processo como um todo. [O historiador, 1886-1964] Karl Polanyi colocou muito bem: quando se tem um conflito entre dois setores, o resultado histórico não é uma vitória absoluta de um lado; ele é, na verdade, moldado pela dinâmica do conflito. As represas serão construídas em condições tecnológicas muito melhores, de forma mais inteligente do ponto de vista ambiental. Os setores que se opõem a obras não são derrotados, pois muitas de suas demandas serão incorporadas, e a própria concepção dos projetos futuros passará a incorporar preocupações ambientais que antes não existiam. Se tivesse havido debate no passado, não teria sido construída a represa de Balbina [AM] como foi -um desastre ambiental e econômico.

FOLHA - Marina Silva deixou o cargo de ministra do Meio Ambiente num bom momento?
PÁDUA - Não do ponto de vista do governo. Ela renunciou num momento confuso, com a primeira-ministra alemã [Angela Merkel] no Brasil, o que deu maior visibilidade mundial ao acontecimento. Mas foi bom o momento como atitude política, colocou a questão de volta ao centro das discussões, pôs o governo numa situação difícil de retroceder em política ambiental. Se fosse uma saída mais comportada, talvez não fosse escolhido como substituto alguém tão comprometido com a ecologia quanto Carlos Minc.

FOLHA - O Protocolo de Kyoto tem validade hoje?
PÁDUA - No contexto da comunidade internacional, o fato de ele existir já é um grande avanço, inclusive por reconhecer que houve graus diferenciados de impacto de cada país -uma inovação. É um divisor de águas, mas está ficando ultrapassado, pois precisamos de mais ousadia em relação a questões como o aquecimento global. Mas sou otimista. Em 1992 [quando houve a cúpula ambiental no RJ], havia preocupação global; desde então, houve retrocesso. Mas agora [a questão] está de volta aos jornais.