quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

I Seminário Internacional Mundos do Trabalho: Histórias do Trabalho no Sul Global

I Seminário Internacional Mundos do Trabalho: Histórias do Trabalho no Sul Global
V Jornada Nacional de História do Trabalho


Chamada de apresentações:
Local: Universidade Federal de Santa Catarina (Florianópolis, SC, Brasil)
Data: 25 a 28 de outubro de 2010.

Instituições Promotoras:
GT Nacional “Mundos do Trabalho” ANPUH;
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
Projeto PROCAD – CAPES “Cruzando fronteiras”.
Os membros do GT Nacional Mundos do Trabalho (ANPUH) convidam pesquisadores para submeterem propostas de apresentações para a sua V Jornada Nacional de História de Trabalho e o I Seminário Internacional “Mundos do Trabalho”, que serão realizados em Florianópolis, em 2010, sob o tema: “Histórias do Trabalho no Sul Global”. O objetivo deste encontro é reunir pesquisadores que enfrentem a gama de questões que envolvem os estudos do mundo do trabalho em uma perspectiva global.
A ideia do encontro em Florianópolis nasceu do intercâmbio com pesquisadores na India e na África do Sul, em simpósios internacionais de escopo semelhante que aconteceram nos últimos anos nesses países. Nosso objetivo é aprofundar essas trocas, ampliando-as com a incorporação de outros pesquisadores da América Latina.
Considerando que a esfera estritamente “nacional” que caracterizou por muito tempo boa parte da historiografia sobre o trabalho não é capaz de dar conta sozinha de dimensões fundamentais da experiência das classes trabalhadoras, como sua diversidade étnica e cultural, seus deslocamentos, a multiplicidade das suas experiências e identidades, propomos como tema geral do evento o desafio de pensar os problemas da história do trabalho a partir de uma perspectiva transnacional ou global.
A ênfase nas conexões e comparações articula-se a partir da constatação de que, a despeito das enormes disparidades, há temas comuns que marcam o lugar distintivo que os mundos do trabalho ocupam nas sociedades do chamado Sul Global – ou seja, nos países pós-coloniais e “em desenvolvimento”, especialmente na América Latina, na África e na Ásia. Lugares estes determinados tanto pela experiência contemporânea quanto pela longa duração das formas de trabalho escravo, compulsório ou super-explorado que caracterizaram as trajetórias dessas sociedades durante a expansão do capitalismo e da sociedade de mercado.
Assim, em paralelo aos temas clássicos da história do trabalho, formulados a partir da experiência dos trabalhadores no hemisfério Norte, as perspectivas que se abrem a partir da atenção dada às especificidades dos mundos do trabalho desde o Sul Global estão na possibilidade de considerar com mais intensidade temas como as fronteiras ambíguas entre o trabalho escravo e o chamado trabalho “livre”, as múltiplas formas do trabalho compulsório (indígena, inclusive), a domesticidade nas esferas do trabalho, as migrações compulsórias, bem como os trânsitos e as redes de sociabilidade transnacionais, a diversidade cultural e étnica dos trabalhadores, a fluidez entre o rural e o urbano. A esses, associam-se também temas que vem enriquecendo as pautas de estudo dos historiadores do trabalho e da experiência trabalhadora, como a indagação sobre sua diversidade, seus divertimentos e lazer, sobre as suas lógicas e formas associativas menos diretamente associáveis ao trabalho – como suas festas, clubes recreativos, de dança e desporto, etc. – bem como do intenso trânsito dessas associações com as organizações político-partidárias; as relações de gênero como instrumento de análise de conflitos e solidariedades intra-classe; a cultura associativista e as relações com os poderes públicos; os diversos arranjos e estratégias de sobrevivência cotidianos adotados pelos trabalhadores no meio urbano e rural (entre elas a utilização das formas legais), etc.
Além da perspectiva comparativa sul-sul para iluminar especificidades das realidades brasileiras, a compreensão da circulação global de idéias, pessoas e mercadorias é uma maneira de ir além das fronteiras nacionais, revelando os aspectos complementares do funcionamento, por um lado, dos processos de produção, distribuição e controle e, por outro, da multiplicidade de experiências compartilhadas por esses trabalhadores(as). Nosso objetivo, portanto é receber textos que discutam os mundos do trabalho e em toda sua possível amplitude.

Objetivos gerais e resultados esperados:
• Fomentar a colaboração de pesquisadores da história do trabalho no Brasil, na América Latina, na África e na Ásia;
• Promover o desenvolvimento de estudos comparativos tendo como a referência a história do trabalho no Brasil, em comparação com outros países do chamado “Sul Global”;
• Repensar a agenda de estudos da história do trabalho no Brasil à luz da experiência, dos processos específicos e conexões que emergem do debate internacional;
• Introduzir novas abordagens e debates dentro do campo da história do trabalho e mais especificamente da historiografia brasileira e sul-americana sobre o trabalho;
• Propor um espaço para a apresentação de novas pesquisas e temas e o acompanhamento de discussões historiográficas internacionais através de seus desdobramentos regionais, contribuindo com isso também para a construção de uma noção mais inclusiva de trabalho e classe trabalhadora.

Serão bem-vindos trabalhos que contemplem os seguintes temas possíveis:
• Migrações forçadas e compulsórias de trabalhadores (incluindo o “tráfico de mulheres” e os “tráficos” de trabalhadores na contemporaneidade);
• Trabalho e diásporas no Hemisfério Sul;
• Trabalho escravo, trabalho indígena e trabalho coercivo nas Américas, África e Ásia;
• Trabalho e os múltiplos significados das identidades “étnicas” e “raciais”;
• Histórias do trabalho em sociedades de “pós-emancipação”
• Raça, gênero e nação na história do trabalho;
• Família, reprodução e domesticidade na esfera do trabalho;
• Prostituição, trabalho infantil e trabalho doméstico;
• Trabalho informal e precarizado;
• Mercados de trabalho e migrações;
• Imigração e política na formação das identidades nacionais;
• Trabalho, colonialismo e pós-colonialismo;
• Ideologias políticas e movimentos sociais
• Ações e organizações políticas;
• Anarquismo, comunismo, socialismo, sindicalismo e internacionalismo;
• Diversidade das lógicas associativas dos trabalhadores;
• Relações com o Estado e as instituições;
• Leis para o trabalho em perspectiva comparativa;
• Trabalho e meio-ambiente;
• Trabalho e militarização;
• Lugares, formas e processos de trabalho;
• Culturas de classe;
• Biografias e trajetórias de trabalhadores;
• Os trabalhadores nas artes e nos media.
• Redes de sociabilidade e política
• Conflitos, solidariedades e rivalidades entre os trabalhadores
• A diversidade e a fluidez das relações campo/cidade na configuração do mundo do trabalho.
• O conceito de “classe trabalhadora” à luz das novas discussões sobre o sul global.
Nós aceitaremos propostas que lidem com aspectos específicos dos temas acima, tanto em âmbito regional quanto comparado. Serão analisadas, igualmente, propostas sobre temas correlatos.

As apresentações poderão ser feitas em português, espanhol e inglês, idiomas oficiais do evento.

O financiamento parcial ou total para apresentadores estrangeiros que não puderem arcar com suas despesas de viagem e estadia no Brasil será solicitado às agências financiadoras do evento. Propostas selecionadas pelo comitê científico poderão obter esse financiamento, por isso os organizadores do Simpósio encorajam fortemente a submissão de trabalhos oriundos de instituições de ensino e pesquisa deoutros países da América Latina, bem como da Índia e dos países africanos. Participantes de instituições científicas oriundos do Hemisfério Norte não serão financiados, mas são igualmente bem-vindos a apresentarem suas propostas. A organização do evento apoiará os participantes internacionais em suas demandas por financiamento junto às suas respectivas agências e instituições de fomento.

Participantes:
Serão consideradas as propostas de quaisquer proponentes que tenham pesquisas sobre os temas amplos contemplados no evento. Pesquisadores em formação poderão ter igualmente suas propostas consideradas, desde que apresentem trabalhos que contemplem resultados maduros de suas investigações. Devido às limitações de espaço e tempo, a aceitação dos trabalhos estará condicionada à avaliação da comissão científica do evento, que selecionará os trabalhos a serem apresentados.
OBS: A apresentação do texto completo será, para todos os participantes, condição final para a inclusão dos trabalhos previamente aceitos na programação do evento.

Datas Importantes:
Envio de propostas: 01/12/2009 – 20/01/2010
Respostas: 31/01/2010
Prazo final para envio dos textos: 15/05/2010
Confirmação final das apresentações: 20/05/2010

Divulgação dos trabalhos que serão financiados parcial ou completamente será feita em tempo hábil para a viagem.

Formato das propostas:
As propostas de apresentação deverão ser enviadas por email para os organizadores do evento (trabalho.global@gmail.com)e deverão conter um resumo de até 300 palavras, contendo título e nome do autor, além de um breve resumo do Curriculum Vitae (resumé) do(s) proponente(s).
Formato dos textos: eletrônico (compatível com word), times 12, espaço 1 e ½, margens de 2,5 cm, 12-20 páginas.
Formato das apresentações: os textos serão divulgados na página do evento; as apresentações serão de 15 minutos, seguidas de comentários de leitores escolhidos pela comissão organizadora.

Toda a correspondência eletrônica deverá ser enviada para o endereço:
trabalho.global@gmail.com

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O trabalho escravo está inserido na economia brasileira’

“O Trabalho escravo no Brasil é sustentado por um tripé: impunidade, pobreza e ganância (...) e está inserido na economia brasileira, porém ele não é fundamental, e por isso pode ser erradicado”. A afirmação é de Leonardo Sakamoto (foto), jornalista e coordenador da organização Repórter Brasil em entrevista a Aldrey Riechel e publicado pelo sítio Amazônia.org.br, 18-01-2010. Eis a entrevista.

A Amazônia é a região que concentra a maior parte das empresas que usam mão-de-obra escrava. Na lista editada pelo Ministério do trabalho e Emprego, aponta que dos 164 casos enumerados, cem deles (61%) ocorreram em Estados que pertencem à Amazônia. Por que nesta região tem tantas ocorrências?
Está diretamente relacionado ao fato do trabalho escravo ser muito usado no Brasil como um instrumento de expansão agropecuária. Trabalho escravo e fronteira agrícola são duas coisas que caminham de mãos dadas. Durante o processo de implantação de um empreendimento agropecuário, você tem muitas vezes, um fazendeiro que não está capitalizado ou, na maioria das vezes, que não quer botar a mão no bolso. E para uma atividade periférica da fazenda, ampliação da fazenda, por exemplo, ele acaba se valendo de formas ilegais e vai fazer o que já é conhecido: vai grilar terras, vai desmatar além da conta e vai usar trabalho escravo, ou seja, para poupar dinheiro. Dinheiro que ele não tem ou que ele não quer gastar em um momento de expansão agropecuária.
Dessa forma, ele pode competir no mercado de uma forma mais rápida sem esses gastos de investimentos. Isso eu estou falando de uma forma geral. O trabalho escravo é utilizado para ampliar a fronteira, para expandir a área agrícola, para expandir a fronteira agrícola.

No caso da Amazônia, a impunidade também auxilia?
Trabalho escravo no Brasil é sustentado por um tripé: impunidade, pobreza e ganância. Ganância que leva as pessoas a quererem obter lucros fáceis, por meio de uma concorrência desleal e através do sofrimento humano. A pobreza que empurra esse pessoal para fora, longe de suas casas e cidades e que facilita o fato deles serem traficados, do nordeste até a Amazônia, por exemplo. E a impunidade, que dá aquela certeza de que pode usar trabalho escravo e depois não vai acontecer nada. É claro que para combater o trabalho escravo estamos tentando reverter esse tripé que sustenta o problema.

Você disse que trabalho e fronteira agrícola trabalham de mãos dadas. É possível dizer que o trabalho escravo gera economia?
Vou até refazer essa sua colocação: o trabalho escravo está inserido na economia brasileira. Ele não é fundamental, e por isso pode ser erradicado. A Repórter Brasil, desde 2003, realiza estudo de cadeia produtiva. Já rastreamos mais de 500 fazendas e, em todas elas, eles entram nessas chamadas "redes comerciais globais". Você tem fazendas vendendo para grandes frigoríficos que exportam produção ou vendem aqui, em território nacional. Tem usinas com trabalho escravo produzindo etanol para o mercado nacional e internacional, açúcar também, algodão, soja, o milho, o arroz, o tomate, a madeira, o carvão vegetal para a siderurgia, para minério de alto valor... Então você tem o trabalho escravo sendo usado como uma ferramenta para gerar competitividade. Tem gente que usa isso para crescer, existir e começar um negócio.
Agora, trabalho escravo não é necessário para a economia, então ele pode ser cortado. Basta para isso que a gente mude o modelo de desenvolvimento. O trabalho escravo não é em nenhum momento uma doença, é uma febre. Febre é sintoma. Sintoma de que alguma coisa está ruim no corpo e o trabalho escravo é o sintoma de que alguma coisa está com problema no corpo, no caso o nosso modelo de desenvolvimento que é extremamente predatório, excludente e destruidor em todos os sentidos.


Isso significa que é preciso uma reforma em todo o sistema produtivo e econômico...
É claro que as pessoas falam assim: "poxa! Tem que acabar com o capitalismo para acabar com o trabalho escravo?". A discussão é longa, mas na verdade se você mudar o modelo de desenvolvimento, se combater impunidade, ganância e pobreza, você reduz drasticamente o trabalho escravo.
Olha a diferença: você vai atuando na questão da pobreza, da dignidade e da ganância, e, se você conseguir mudar o modelo de desenvolvimento, que é isso que nós defendemos, e é isso que as entidades que trabalham com a questão socioambiental defendem, nós vamos acabar com o trabalho escravo. Por quê? Porque é uma forma de exploração que está relacionada com uma maneira de ver o meio ambiente e a sociedade como meros instrumentos de lucro e não como elementos que devem estar em harmonia.


A atualização da Lista Suja do Trabalho Escravo foi feita há pouco tempo, onde foram incluídas 12 empresas e excluídos 10 nomes. Você acredita que a divulgação das empresas por meio dessa relação é uma medida que ajuda a punir aquelas que usaram mão-de-obra escrava? Essa é uma medida que traz resultados?
Traz muitos resultados sim. A Lista Suja do Trabalho Escravo, que foi criada em 2003 pelo governo federal é, em nossa opinião, um dos mais importantes instrumentos de combate ao trabalho escravo do Brasil. O pacto nacional pela erradicação do trabalho escravo, que foi criado pela repórter Brasil, pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), pelo Instituto Ethos e depois também foi abraçado pelo Instituto de Observatório Social, é um instrumento que se baseia na lista suja, ou seja, mais de 200 empresas e associações, que fazem parte do pacto, são obrigadas a checar a Lista Suja antes de fechar negócio. Empresas públicas, privadas, bancos públicos e bancos privados são obrigados a checar a lista suja antes de fechar negócio. E também o próprio governo federal já deixou claro que Banco Público Federal não emprestará para quem estiver na Lista Suja.
Se você consegue evitar que essas empresas consigam escoar sua produção, tenham compradores, clientes e que também evitem créditos para esse pessoal, você vai atuar naquela ganância. O pessoal usa trabalho escravo porque gera lucro. Não é porque alguém é malvado.
Então se o trabalho escravo começar a gerar prejuízo, elas vão repensar antes de usá-lo. A lista suja, além de ser um instrumento de publicização, de transparência do combate ao trabalho escravo, é uma forma de atuar diretamente no combate a esse problema, por meio das empresas que são signatárias do pacto.
É uma medida que é usada para bloqueio comercial. O objetivo da criação dela foi a transparência e é um instrumento corajoso do governo e das instituições que fazem parte da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, elas apóiam, sem sombras de dúvida, a lista suja.


Você acredita que o Programa Nacional de Direitos Humanos, recém- lançado pelo governo, pode contribuir na luta contra o trabalho escravo?
O programa, ao buscar a redução da pobreza, a validação dos direitos humanos, combater a negação dos direitos humanos, garantiu uma série de ações que bate de frente com impunidade, bate de frente com a pobreza e age contra essa ganância desmensurada. Então é claro que o Plano Nacional, vai ser um instrumento importante.
Ele tem um capítulo sobre trabalho escravo, que a gente [Repórter Brasil] ajudou a confeccionar. O programa prevê reforçar a adoção do Plano Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que existe e está à disposição de qualquer um.
Agora é importante que se diga o seguinte: num Brasil onde os direitos Humanos não valem nada, o trabalhador é tratado como bicho, indígenas são tratados como descartáveis, quilombolas, ribeirinhos e outras pessoas pobres do campo são tratados como ninguém é de admirar que a área de direitos humanos tenha conseguido avançar gerando um terceiro programa.
O trabalho escravo é uma das piores formas de exploração humana. Porque não mexe apenas com direitos trabalhistas, mexe com vários direitos fundamentais: ele também é a ausência do tratamento digno, do direito humano, do aceso a terra, de acesso a alimentação e ao trabalho descente. Um plano que eleva o patamar da dignidade dos trabalhadores do campo é um plano que ajuda a combater o trabalho escravo. E se fosse adotado, é claro que o modelo de desenvolvimento no Brasil seria outro.
Tanto é que veja as forças retrógradas que não defenderam o plano: militares, ruralistas e setores conservadores da igreja nacional, mantendo um padrão semelhante ao padrão do Brasil: é o padre, o delegado é o coronel. São os três conjecturando sobre como manter a alma e o corpo dos trabalhadores e dos seres humanos em constante privação. Até pelo antagonismo de quem atacou o plano, você sabe que o plano é um instrumento que deve ser defendido.

A OFENSIVA DA DIREITA PARA CRIMINALIZAR OS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

Vejam a cartilha que foi preparada, reunindo materiais ja publicados, sobre a criminalização dos movimentos e será distirbuída nos FSM de Porto Alegre e Salvador. Clique na capa da cartilha para fazer o download.

sábado, 9 de janeiro de 2010

VII Seminário do Trabalho


Chamada de apresentações:

Local:
UNESP, Marília, São Paulo - Brasil
Data:
24 a 28 de maio de 2010.
Envio de propostas: 07/01/2010 – 28/02/2010

Instituições Promotoras:
RET – Rede de Estudos do Trabalho
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – UNESP – Marilia
Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”

A Rede de Estudos do Trabalho convida pesquisadores para submeterem propostas de apresentações para o VII Seminário do Trabalho, evento internacional que será realizado na UNESP – Campus de Marília, em 2010, sob o tema: Trabalho, Educação e Reprodução Social”. O objetivo deste encontro é reunir pesquisadores que estudam o mundo do trabalho em uma perspectiva critica e interdisciplinar.
No decorrer do VII Seminário do Trabalho ocorrerá também a VI Mostra CineTrabalho, evento promovido pelo Projeto de extensão Tela Crítica (http://www.telacritica.org/).

Com seis edições, o Seminário do Trabalho já se consolidou como um evento de referência para a UNESP – Campus de Marília, por se constituir como um importante espaço de debate crítico e de troca de experiências entre diversos pesquisadores do Brasil e do mundo voltados para as questões pertinentes ao mundo do trabalho, em especial para as situações decorrentes das transformações do capitalismo global.

Objetivos gerais e resultados esperados:
- Promover a colaboração de pesquisadores que estudam o mundo do trabalho numa perspectiva critica e interdisciplinar.
- Repensar a agenda teórico-metodológica de estudos do trabalho à luz do debate internacional e das novas transformações do capitalismo global
- Propor um espaço de interlocução pública sobre as perspectivas do mundo do trabalho e do sindicalismo no Brasil e no mundo.

Participantes:
Serão consideradas as propostas de pesquisadores de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) que investiguem temas vinculados à problemática do trabalho. Pesquisadores de Iniciação Científica e de pós-graduação latu sensu poderão ter igualmente suas propostas consideradas, desde que apresentem trabalhos que contemplem resultados maduros de suas investigações científicas. Devido às limitações de espaço e tempo, a aceitação dos trabalhos estará condicionada à avaliação da comissão científica do evento, que selecionará os trabalhos a serem apresentados.
OBS: A apresentação do texto completo será, para todos os participantes, condição final para a inclusão dos trabalhos previamente aceitos na programação do evento e publicação nos Anais.

Datas Importantes:
Envio de propostas: 07/01/2019 – 28/02/2010
Respostas: 14/03/2010
Prazo final para envio dos textos: 28/03/2010
Confirmação final das apresentações: 28/04/2010

Formato das propostas:
As propostas de apresentação deverão ser enviadas por email para os organizadores do evento (retst@estudosdotrabalho.org) e deverão conter um resumo de até 300 palavras, contendo título e nome do autor, além de um breve resumo do Curriculum Vitae (resumé) do(s) proponente(s).
Formato dos textos: eletrônico (compatível com word), times 12, espaço: 1,5; margens: 2,5 cm; 12-20 páginas.
Formato das apresentações: os textos serão divulgados na página do evento; as apresentações serão de 15 minutos, seguidas de debate entre os participantes.


Toda a correspondência eletrônica deverá ser enviada para o endereço: retst@estudosdotrabalho.org
Conheça o Blog do Seminário do Trabalho

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

‘O capitalismo se tornou hostil à vida’. Entrevista com Richard Sennett

O capitalismo financeiro mudou o mundo. E não para melhor. A opinião é do sociólogo Richard Sennett. A aversão ao longo prazo deste capitalismo foi um dos fatores que originaram a atual crise e que mudou radicalmente as nossas vidas nas últimas décadas. Sennett esteve em Barcelona, na Espanha, apresentando seu último livro, O Artífice (Record, 2009), que parte de uma antiga conversa com sua professora Hannah Arendt, a autora de A condição humana, na qual ela separava a produção física, na qual seríamos pouco mais que bestas de carga, da criação mental.
Para Arendt, a mente entra em funcionamento uma vez terminado o trabalho. Para Sennett, no processo de produção do artesão – todo aquele que deseja realizar uma tarefa bem feita, e que inclui não apenas a produção manual, mas também programadores, médicos, artistas ou padres – o pensar e o sentir estão integrados. A mão e a cabeça não estão separadas, mesmo que a nossa sociedade valorize apenas uma.
A entrevista é de Justo Barranco e está publicada no jornal argentino Clarín, 23-12-2009. A tradução é do Cepat. Eis a entrevista.

Por que a relação entre a mão e a cabeça é básica?
Nossa potência mental se desenvolveu através das mãos, da manipulação de coisas. Hoje pensamos nas atividades materiais como coisas estúpidas, percebemos nossos cérebros como uma máquina auto-suficiente. É errado. Há um processo aberto entre melhorar as capacidades físicas e o pensamento, uma relação estreita entre a mão, a cabeça e o coração. Pensamos um desenho e acreditamos que essa imagem mental pode projetar-se no mundo. Uma péssima política: não aprendemos da prática.

Parece aquela velha divisão filosófica entre alma e corpo.
Não é apenas a filosofia, a política também. O capitalismo fomentou esta divisão. Nas últimas décadas os bancos negociaram com abstrações, teorizam sobre os valores e perdem o contato com o que é uma fábrica, uma oficina. Muitos compram e vendem empresas que não entendem. Nem precisam, porque compram o seu valor monetarizado. E não há possibilidade, artesanato, de fazer com que a empresa seja boa ou má, não há conhecimento. Compram uma empresa de colchões e a vendem a outra, mas com mais dívida, esta faz o mesmo. A empresa tem cada vez menos capital e tende a quebrar. Perguntei a um dos compradores: viste como se faz um colchão? Me respondeu: para quê, se seria proprietário por apenas três meses. Assim se desenvolve agora a economia capitalista, se despreza a práxis, a mão na massa, não sabem o que fazer porque de fato nunca administraram nada.

É a exploração atual?
Sim, a dominação das finanças sobre a economia real. As finanças são uma operação abstrata. Sempre pensamos que o capitalismo é hostil ao artesanato porque descapacita o artista, mas é mais sofisticado: não está implicado na prática. Teoriza. Por exemplo, com a dívida. É uma das razões da crise atual.

E as outras?
Outra é a forma do tempo no capitalismo hoje: tudo é curto prazo. A economia global se reorienta para o comércio de preços das ações mais que os seus benefícios finais. A noção de administrar uma empresa para ter benefícios a longo prazo desapareceu. Podes ganhar dinheiro com empresas que estão perdendo. De maneira que quando chegas a uma economia como esta não tens interesse em conseguir que a economia real funcione.

Que pensa o autor de A corrosão do caráter do alarma pela alta taxa de suicídios em empresas como a Renault ou a France Télécom?
Na minha equipe estamos estudando o desemprego a longo prazo em Wall Street e encontrando coisas muito similares. Alcoólicos e suicídios não apenas entre os que perdem o trabalho, mas entre os que permanecem e que estão tão estressados porque para preservar o posto de trabalho têm que fazer cada vez mais. O capitalismo nos últimos 20 anos se tornou completamente hostil à construção da vida. No antigo capitalismo corporativo de mediados do século XX podias sofrer injustiças, mas construir a vida. Nos últimos 20 anos se converteu em algo desumano, e a esquerda está tão contente por serem homens práticos que podem falar com os banqueiros. De fato, o primeiro movimento na crise foi ajudar os bancos. Na Inglaterra foram comprados quatro e mesmo assim se decidiu não interferir no que fizeram.

Qual é a alternativa?
Não podemos voltar ao antigo capitalismo. A esquerda deve refletir sobre como fazer crescer empresas que realmente permaneçam. Empresas de tamanho pequeno como as do norte da Itália e do sul da Alemanha, com trabalhos muito especializados. Não fabricam em massa e trabalham mais a longo prazo, desde a formação dos trabalhadores até as suas relações de exportação. Um trabalho artesanal, que pode ser muito avançado, como telas de alta definição para cirurgias.

O Artífice é o início de uma trilogia de despedida.
Queria unir as preocupações básicas da minha obra, a relação entre o material e o social, o concreto e o abstrato. Depois me dedicarei ao violoncelo, terei recuperado a possibilidade de tocá-lo, mas só me restam dez anos na mão. Certamente, todos os músicos são artesãos, sabem que não existe uma ideia musical sem base física. O segundo livro será dedicado à relação entre o material e o social: a confiança, o respeito, a cooperação, a autoridade, o artesanato das relações sociais. E o terceiro, à nossa relação com o meio ambiente.

Você não aceita o que está por trás da ideia de sustentabilidade.
Porque não somos proprietários da natureza. Sustentabilidade significa manter as coisas como estão. É uma metáfora errônea. Podemos viver com muito menos. Menos tráfego, menos carbono. Diferentes tipos de prédios. Devemos mudar a noção da modernidade de que o ser humano sempre dominaria a natureza. Produz autodestruição. Copenhague foi terrível, especialmente os chineses, que cinco dias antes diziam “verde, verde”, e depois que não, que não queriam que ninguém interferisse nem conhecesse a sua tecnologia. Aterrador. E os europeus, fora do jogo.

Megatransposição de água divide chineses

De pé, em meio aos destroços de sua casa, com o por-do-sol projetado sobre os túmulos de seus ancestrais, Li De irrompe em pranto ao descrever que está sendo realocada para abrir caminho para o mais recente grandioso projeto de engenharia do governo chinês. Sua casa, na Província rural de Henan, em breve ficará submersa, sob um reservatório que alimentará o duto central do maior projeto hídrico da história - o "projeto sul-norte de transposição de águas".
A reportagem é de Jamil Anderlini, do Financial Times e publicada pelo jornal Valor, 05-01-2010.

"[O governo] disse estar nos transferindo para novas terras para ficarmos ricos e prósperos, mas eles nos lançaram num buraco infernal", soluça Li. "As novas terras e casas nada valem, e nossa vida lá é péssima."
A camponesa faz parte do maior lote das 440 mil pessoas que serão deslocadas para abrir caminho para o reservatório e o canal que conduzirá água do Rio Yang-tsé e seus afluentes no sul da China para as áridas planícies setentrionais e para Pequim.
Esse projeto, com seus ecos de megalomania maoísta, não se coaduna facilmente com a China moderna, em que Pequim está fazendo esforços para limpar o ambiente e estimular sua revolução verde.
Está também ficando cada vez mais difícil para Pequim desenraizar centenas de milhares de pessoas para abrir caminho para obras faraônicas. Como os cidadãos estão ficando mais ricos, melhor organizados e exigindo seus direitos básicos, o governo cada vez mais receia provocar movimentos sociais de descontentamento que possam crescer, transformando-se em iniciativas políticas oposicionistas mais amplas.
Mas os governantes do país, em sua maioria engenheiros, estão seguindo em frente com o esquema a despeito da oposição até mesmo de alguns de seus próprios especialistas, em cuja opinião o projeto terá consequências involuntárias e provavelmente não conseguirá alcançar seu objetivo manifesto.
A escala da planejada transposição não tem precedentes. No leste, o governo construiu mais de 40 gigantescas estações de bombeamento ao longo das antigas vertentes do Grande Canal Imperial para levar bilhões de metros cúbicos de água para o norte. Na China central, o canal de 1,4 mil quilômetros passa, em determinado ponto, a ser subterrâneo, correndo através de um túnel sob o caudaloso Rio Hoang (o Rio Amarelo).
Por outro lado, engenheiros planejaram uma ambiciosa rota de 1 mil quilômetros para o oeste no platô tibetano, o que envolverá abrir caminho com explosivos através de alguns dos picos mais elevados do mundo para desviar água da nascente do Yang-tsé para a nascente do Rio Amarelo, interligando as duas maiores bacias fluviais pela primeira vez.
Apesar da oposição, a ritualística máquina de poder político chinês torna impossível para os líderes abortar o projeto, porque isso questionaria a credibilidade de seus antecessores e a legitimidade do Partido Comunista. Entretanto, no que pode ser uma importante mudança, pessoas envolvidas dizem que Pequim está reconsiderando a viabilidade da trajetória pelo oeste - em parte, devidos às dificuldades de construção e ao custo exorbitante; em parte, devido à percepção entre a elite política das consequências imprevisíveis de megaprojetos anteriores.
O projeto é um símbolo ultrapassado da China no Século XX que não se coaduna com a atual ênfase governamental em crescimento sustentado e equilibrado. Aos ouvidos ocidentais, frases como "desenvolvimento científico" e "sociedade harmoniosa" podem soar abstratos, mas repetidas frequentemente em cada nivel de governo elas são a base de uma nova filosofia oficial. Elas expressam a determinação do presidente Hu Jintao e de seu governo de migrar do cego empenho em crescimento econômico para uma versão mais sustentável, menos ambientalmente destrutiva, com distribuição mais equânime da prosperidade e uma ênfase em melhor qualidade de vida para os 750 milhões de cidadãos das zonas rurais.
Assim como a barragem de Três Gargantas - maior hidrelétrica do mundo, construída na década anterior -, o esquema é um legado dos antecessores de Hu. A obra traz o maior alto selo de aprovação: do próprio presidente Mao Tsé-tung, pai do sistema comunista chinês.
Em 1952, durante uma inspeção da bacia do Rio Amarelo, o "grande timoneiro" fez uma observação que acabaria tendo consequências de largo alcance: "Há muita água no sul da China e muito pouca no norte. Se for possível, poderíamos tomar um pouco emprestado e trazê-la para o norte". Pode ou não ter sido um comentário casual. Mas, com certeza, foi tomado seriamente pelos subalternos de Mao. Engenheiros puseram-se a trabalhar em planos para transferir água do Yang-tsé para o árido norte e para o minguante Rio Amarelo. Entretanto, foi somente a partir de 2002 que os antecessores de Hu aprovaram o projeto, a um custo estimado em 500 bilhões de yuans, como um de seus últimos atos executivos, abrindo caminho para o início da construção.
Críticos dizem que o governo, em larga medida, engavetou seus planos de economia de água para o combate à crise hídrica no país - a China tem 22% da população mundial, mas sua disponibilidade hídrica é de apenas 25% da média per capita mundial – em favor de projetos de redirecionamento hídrico enormemente dispendiosos.
"A água vem sendo usada de modo extremamente insustentável no norte da China em parte devido a esse projeto, porque governos e população estão prevendo que virá água do sul para cobrir o déficit", diz Ma Jun, do Instituto de Questões Públicas e Ambientais, em Pequim. "Mas, a menos que o uso de água seja contido no norte, persistirá um déficit enorme, mesmo com a água adicional proveniente do projeto de transposição."
Nas planícies setentrionais da China, onde vivem 440 milhões de pessoas, a escassez de água é a mais aguda, com apenas 462 metros cúbicos per capita disponíveis por pessoa por ano, muito abaixo do 1 mil metros cúbicos usados pela ONU para definir uma sociedade com "escassez de água". Nas cidades gigantes de Pequim e Tianjin, o nível é de apenas 292 metros cúbicos, um pouco acima de 3%, referência média mundial. A crise é exacerbada pela poluição cada vez mais severa que deixou 60% dos rios e lagos monitorados em condição inadequada para consumo potável ou contato humano.
Mas, apesar da escassez, há desperdício no consumo. Para cada US$ 4 de produto da economia, 1 metro cúbico de água é demandado - aproximadamente três vezes a média mundial. Em Pequim, onde uma população superior a 17 milhões de habitantes vive em estado de seca, abundam campos de golfe bem irrigados e diversões aquáticas, e o governo anunciou planos de conversão do complexo olímpico do "Ninho de Pássaro" num parque de esportes de inverno cobrindo mais de 20 mil metros quadrados com neve artificial.
Li e seus vizinhos na rota central do projeto de transposição acha impossível compreender que estejam sendo transferidos de seus lares ancestrais para que a elite privilegiada da capital possa desfrutar amenidades aquáticas e a prática de esqui.
Apenas 23 mil das pessoas programadas para transferência já foram transportadas e o governo deflagrou uma campanha de propaganda à moda antiga para convencer os habitantes remanescentes em vilarejos a partir pacificamente. Mas em dezenas de entrevistas ao "Financial Times", as pessoas já transferidas manifestaram ira e insatisfação diante do que, disseram elas, foram indenizações inadequadas e indiferença oficial a suas agruras. A escala de indignação e ira provavelmente se multiplicará quando o restante dos 440 mil novos migrantes forem transferidos.
Ao ficarem mais ricos, os cidadãos chineses também se tornaram mais assertivos e melhor organizados em sua oposição a projetos que afetam diretamente suas vidas. Em vários casos recentes, residentes urbanos conseguiram bloquear a construção de fábricas de produtos químicos perto de suas casas, ao passo que nas zonas rurais e em cidades mais distantes a frequência de distúrbios de grandes proporções e manifestações violentas disparou nos últimos anos. Reservadamente, autoridades admitem a possibilidade de distúrbios sociais graves - e que esse é o seu maior desafio na tentativa de concluir o projeto.
Apesar disso, as primeiras fases das rotas central e oriental estão bem avançadas, com conclusão prevista para até 2013. Mesmo assim, a rota oriental tem enfrentado atrasos e complicações na forma de poluição industrial ao longo da rede do Grande Canal. De acordo com pessoas familiarizadas com o assunto, o governo de Tianjin, uma cidade portuária de quase 12 milhões de pessoas distante uma hora de carro de Pequim, recusou-se a usar água dessa vertente por estar preocupado de ela ser demasiado poluída para ser bebida.
O custo da primeira fase do projeto é estimado em 255 bilhões de yuans, e críticos dizem ser essa mais uma razão importante pela qual o governo é incapaz de reverter inteiramente seu andamento. Eles dizem que funcionários de governos locais estão contando com esses recursos para gerar empregos e crescimento econômico, para não mencionar as oportunidades de suborno. O governo central não tem, fundamentalmente, condições de reduzir a escala do projeto sem prejudicar gravemente sua autoridade nos escalões inferiores.
Confrontado com exorbitantes custos financeiros e humanos, mas impossibilitado de reverter a iniciativa, o governo mudou as justificativas para silenciar oponentes e seguir em frente com as obras. "A portas fechadas, a principal justificativa para o projeto parece ter a sua importância reduzida: a necessidade de água em caso de guerra ou alguma outra situação emergencial", segundo um ex-funcionário do governo.
Apesar de o aquecimento mundial não ter estado na agenda de Pequim em 2002, muito menos em 1952, quando o plano foi originalmente concebido, o "marketing" do projeto de transposição também foi modificado, passando a ser propagandeado como parte da resposta às mudanças climáticas. Mas muitos suspeitam que essas razões são pouco mais do que um subterfúgio para um projeto que o governo é totalmente incapaz de reverter.
"Infelizmente vivemos num sistema em que nossos líderes eleitos põem em prática sonhos desvairados, em vez de assumir sua responsabilidade após impor catástrofes às pessoas comuns", disse Dai Qing, um ambientalista que cumpriu pena na prisão política mais infame da China devido a suas críticas à destruição ambiental. "Mas, talvez, se os dirigentes realmente acreditam em seus slogans e realmente decidirem que é hora de viver em harmonia com a natureza, então esse será o último megaprojeto insano que veremos na China."

Contratos secretos da Monsanto são revelados

Contratos confidenciais que detalham as práticas de negócios da Monsanto Co. revelam como a maior desenvolvedora de sementes do mundo está pressionando competidores, controlando companhias menores de sementes e protegendo seu domínio sobre o mercado multibilionário de sementes geneticamente modificadas.
A reportagem é de Chirstopher Loenard, publicada pela Associated Press e pelo sítio The Atlanta Journal-Constitution, 14-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Com os genes patenteados da Monsanto inseridos em cerca de 95% de toda a soja e de 80% de todo o milho produzido nos EUA, a companhia também está usando seu amplo alcance para controlar a habilidade de novas empresas biotécnicas de obter uma grande distribuição de seus produtos, de acordo com uma investigação de diversos acordos de licenciamento da Monsanto e dezenas de entrevistas com participantes da indústria das sementes e com especialistas em direito e em agricultura.
A queda da competição no negócio de sementes poderia levar a uma elevação de preços que atingiriam a mesa de todas as famílias. É por isso que os flocos de milho que você come no café-da-manhã, o refrigerante que você bebe no almoço e o molho de carne que você janta provavelmente foram produzidos a partir de sementes que cresceram com os genes patenteados da Monsanto.
Os métodos da Monsanto são explicados em detalhe em uma série de acordos de licenciamento comercial confidenciais obtidos pela Associated Press. Os contratos, de 30 páginas, incluem termos básicos para a venda de sementes manipuladas resistentes ao herbicida Roundup da Monsanto, junto com acordos suplementares mais curtos, que se referem às novas características da Monsanto ou a outras emendas de contratos.
A companhia usou os acordos para difundir sua tecnologia – dando a cerca de 200 companhias menores o direitos de inserir genes da Monsanto em suas variedades separadas de pés de milho e de soja. Mas, segundo a investigação da AP, o acesso aos genes da Monsanto vem com um custo e uma grande quantidade de outros anexos pendentes.
Por exemplo, uma cláusula de um contrato proíbe que empresas independentes cultivem plantas que contenham tanto os genes da Monsanto e os genes de qualquer um de seus concorrentes, a menos que a Monsanto tenha lhes dado uma permissão prévia por escrito – dando à Monsanto a possibilidade de efetivamente trancar a porta para que seus concorrentes insiram suas características patenteadas na vasta parcela das sementes norte-americanas que já contêm genes da Monsanto.
As estratégias de negócio e os acordos de licenciamento da Monsanto estão sendo investigadas pelo Departamento de Justiça dos EUA e por pelo menos dois procuradores gerais do Estado, que estão tentando determinar se essas práticas violam as leis antitruste dos EUA. As práticas também estão no centro de processos antitruste civis contra a Monsanto apresentados por seus concorrentes, incluindo um processo de 2004 apresentado pela Syngenta AG, que foi decidido por meio de um acordo, e uma litigação em curso pedida neste verão pela DuPont em resposta à ação judicial da Monsanto.
A gigante da agricultura com sede no subúrbio de St. Louis disse que não fez nada errado.
"Nós acreditamos que não haja qualquer mérito para alegações sobre nossos acordos de licenciamento ou seus termos", disse o porta-voz da Monsanto, Lee Quarles. Ele disse que não poderia comentar sobre cláusulas específicas dos acordos, porque eles são confidenciais e estão sujeitos a uma litigação em curso.
"Nossa atitude com relação ao licenciamento a muitas companhias é pró-competição e permitiu que literalmente centenas de empresas de sementes, incluindo todos os nossos principais concorrentes diretos, oferecessem milhares de novos produtos para sementes aos agricultores", disse.
O benefício da tecnologia da Monsanto para os fazendeiros é inegável, mas alguns de seus principais concorrentes diretos e empresas de sementes menores afirmam que a companhia está usando táticas repressivas para promover o seu controle.
"Acreditamos agora que a Monsanto tem controle sobre algo como 90% das sementes transgênicas. Esse nível de controle é quase inegável", disse Neil Harl, economista agrícola da Iowa State University, que estudou a indústria das sementes durante décadas. "O resultado disso é que está se intensificando o controle da Monsanto e tornando-lhes possível o aumento de seus preços a longo prazo. E temos visto isso acontecer durante os últimos cinco anos, e o fim não está ao alcance dos olhos".

Aumento dos preços

Questiona-se quanto poder uma única empresa pode ter sobre as sementes, o fundamento do suprimento de alimentos do mundo. Sem uma competição forte, a Monsanto pode elevar o preço de suas sementes o quanto quiser, o que, por sua vez, pode elevar o custo de tudo, desde a ração animal até o pão branco e os biscoitos.
O preço das sementes já está aumentando. A Monsanto aumentou o preços de algumas sementes de milho no ano passado em 25%, com 7% adicionais de aumento planejados para as sementes de milho em 2010. As sementes de soja da marca Monsanto subiram 28% no último ano e ficarão estáveis ou aumentarão 6% em 2010, disse a porta-voz da empresa, Kelli Powers.
O grande uso de acordos de licenciamento pela Monsanto colocou as suas características biotécnicas entre as tecnologias mais ampla e rapidamente adotadas na história da agricultura. Nestes dias, quando os agricultores compram fardos de sementes com marcas obscuras como AgVenture ou M-Pride Genetics, eles estão pagando por produtos de licença da Monsanto.
Uma das inúmeras cláusulas nos acordos de licenciamento é a proibição de misturar genes – ou "amontoar", na gíria industrial –, o que aumenta o poder da Monsanto.
Uma cláusula contratual provavelmente ajudou a Monsanto a comprar 24 empresas de sementes independentes em todo o Cinturão Agrícola [Estados do Meio Oeste dos EUA como Iowa, Kansas, Minnesota, Nebraska, Dakota do Norte e do Sul] ao longo dos últimos anos: esse acordo sobre as sementes de milho afirma que, se uma empresa menor muda de proprietário, seu inventário com as características da Monsanto "deve ser destruído imediatamente".
No entanto, Quarles disse que não sabia desse acordo mais antigo, obtido pela AP, mas disse que, "da forma como eu entendo", a Monsanto inclui cláusulas em todos os seus contratos que permitem que as empresas vendam seu inventário se o proprietário mudar, em vez de forçá-las a destruir o inventário imediatamente.
Outra cláusula de contratos do início da década – referentes a descontos – também ajuda a explicar o rápido crescimento da Monsanto ao ampliar os novos produtos.
Um contrato dava a uma empresa de sementes independente grandes descontos se a companhia assegurasse que os produtos da Monsanto atingissem 70% do total do seu inventário de sementes de milho. Em sua ação judicial de 2004, a Syngenta chamou os descontos como uma parte da "campanha de terra arrasada" da Monsanto para manter as novas características da Syngenta fora do mercado.
Quarles disse que os descontos foram usados para atrair as empresas de sementes a divulgar produtos da Monsanto quando a tecnologia era nova e os agricultores ainda não a haviam usado. Agora que os produtos estão bem difundidos, a Monsanto não deu continuidade aos descontos, disse ele.
Os contratos da Monsanto revistos pela AP proíbem que as empresas de sementes discutam termos, e a Monsanto tem o direito de cancelar acordos e destruir os inventários de um negócio se as cláusulas de confidencialidade são violadas.
Thomas Terral, diretor geral da Terral Seed, em Louisiana, disse que recentemente rejeitou um contrato da Monsanto porque colocava muitas restrições ao seu negócio. Mas Terral recusou apresentar o contrato não firmado à AP ou mesmo discutir seus conteúdos porque ele tinha medo de que a Monsanto o retaliasse e cancelasse o resto de seus acordos.
"Eu estaria tão envolvido com o que seria capaz de fazer que basicamente eu não teria valor nenhum para qualquer outra pessoa", disse ele. "A única pessoa à qual eu teria valor seria a Monsanto e continuaria pagando milhões para eles em taxas".
Os proprietários de empresas de sementes independentes poderiam renunciar a seus contratos com a Monsanto e retornar às vendas de sementes convencionais, mas disseram que isso poderia ser financeiramente desastroso. O gene Roundup Ready da Monsanto se tornou o padrão industrial ao longo da última década, e as pequenas empresas temem a perda de consumidores se renunciarem a ele. Também poderia levar anos de cultivos e investimentos para misturar os genes da Monsanto em uma linha de produtos de uma companhia de sementes, por isso renunciar aos genes poderia ser muito custoso.
A Monsanto reconhece que os advogados do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) estão procurando documentos e entrevistando empregados da empresa sobre suas práticas de mercado o DOJ não quis comentar.
Um representante do procurador-geral de Iowa, Tom Miller, disse que o escritório está examinando possíveis violações antitruste. Além disso, duas fontes íntimas à investigação no Texas disseram que o escritório do procurador-geral do Estado, Greg Abbott, estão investigando as mesmas questões. Os Estados têm a autoridade de fazer valer as leis antitruste federais, e os procuradores-gerais muitas vezes estão envolvidos nesses casos.
O presidente e diretor-executivo da Monsanto, Hugh Grant, disse aos analistas de investimentos durante uma conferência que os aumentos de preços se justificam por causa do estímulo de produtividade que os agricultores tiveram com as sementes da companhia. Os agricultores e os proprietários de empresas de sementes concordam que a tecnologia da Monsanto impulsionou os rendimentos e os lucros, economizando o tempo que eles antes gastavam eliminando as pragas e o dinheiro que gastavam com pesticidas.
Mas os recentes aumentos de preços ainda têm sido duros para engolir nas fazendas.
"É como se eu tivesse sido atingido por um mal tempo e tivesse tido um rendimento pobre. Isso apenas significa que eu ganhei menos no fim das contas", disse Markus Reinke, produtor de milho e soja perto de Concordia, Missouri, que assumiu a fazenda de sua família em 1965. "Eles podem cobrar porque podem fazer isso e prosseguir normalmente. Nós, agricultores, só nos queixamos, balançamos nossas cabeças e seguimos em frente com isso".
Qualquer caso do Departamento de Justiça contra a Monsanto poderia dar origem a um novo patamar ao equilibrar um direito da empresa de controlar seus produtos patenteados ao mesmo tempo em que protege o direito à competição livre e aberta, disse Kevin Arquit, ex-diretor da Federal Trade Commission Competition Bureau e atual procurador antitruste com a empresa Simpson Thacher&Bartlett LLP, em Nova York.
"Há questões muito interessantes e não apenas para as empresas, mas para o Departamento de Justiça", disse Arquit. "Eles estão em uma área em que há incerteza na lei e há implicações sobre o bem-estar do consumidor e sobre as políticas governamentais independentemente do resultado".
Outras empresas de sementes seguiram a liderança da Monsanto incluindo cláusulas restritivas em seus acordos de licenciamento, mas seus produtos penetraram apenas em segmentos menores do mercado de sementes dos EUA. O gene Roundup Ready da Monsanto, por outro lado, está em um conjunto tão amplo de sementes que seus acordos de licenciamento podem ter um efeito massivo nas leis do mercado.

O crescimento do gigante

A Monsanto era apenas um concorrente de um nicho específico nos negócios de sementes há 12 anos. Ela chegou ao topo graças à inovação de seus cientistas e ao agressivo uso da lei de patentes por seus procuradores.
Primeiro, veio a ciência, quando a Monsanto, em 1996, introduziu a primeira variedade comercial de sementes geneticamente modificadas de soja do mundo. As plantas Roundup Ready era resistentes ao herbicida, permitindo que os agricultores passassem Roundup quando quisessem, em vez de terem que esperar até que a soja tivesse crescido o suficiente para suportar o produto químico.
A companhia logo colocou à disposição outras sementes transgênicas, como os pés de milho que produziam um pesticida natural para afugentar insetos. Mesmo que a Monsanto tivesse produtos que eram um sucesso de venda, ela ainda não tinha um ponto de apoio em uma indústria de sementes feita de centenas de empresas que abasteciam os agricultores.
Foi aí que entraram as inovações legais, quando a Monsanto se tornou uma das primeiras a patentear amplamente seus genes e a conquistar o direito de controlar estritamente como deviam ser usados. Esse controle permitiu-se difundir sua tecnologia por meio de acordos de licenciamento, ao mesmo tempo em que formava o mercado ao redor deles.
Ainda na década de 70, universidades públicas desenvolveram novas variedades para as sementes de milho e de soja que faziam com que crescessem de forma resistente e resistissem às pestes. As empresas de sementes pequenas obtinham as variedades a preço baixo e podiam misturá-las a sementes de espécies superiores sem restrições. Mas os acordos deram à Monsanto o controle sobre a mistura de múltiplas variedades biotécnicas de sementes.
As restrições atingiam até pesquisadores financiados pelos contribuintes.
Roger Boerma, professor pesquisador da Universidade da Georgia, está desenvolvendo variedades especializadas de sementes de soja que crescem bem nos Estados do sudeste norte-americano, mas sua pesquisa atual está presa por essas restrições da Monsanto e de seus competidores.
"Tornou uma fase da nossa vida incrivelmente desafiador e difícil", disse Boerma.
As regras também podem restringir a pesquisa. Boerma parou uma pesquisa sobre uma linha de novas plantas de soja que continham uma característica de um competidor da Monsanto quanto ele soube que a característica era inefetiva a menos que pudesse ser misturado ao gene Roundup Ready da Monsanto.
Boerma disse que ele nem pensou em pedir permissão da Monsanto para misturar suas características com a variedade do competidor.
"Eu acho que a mistura da tecnologia de características deles com a tecnologia de características de outra companhia provavelmente seria um sério problema para eles", disse.
Ao mesmo tempo, os direitos de patente da Monsanto dão-lhe a autoridade para dizer até que ponto as empresas são independentes para usar suas características, disse Quarles.
"Tenham em mente que, como o desenvolvedor de propriedade intelectual, é nosso direito determinar quem irá obter os direitos sobre nossa tecnologia e para qual objetivo", disse.
"Se as empresas de sementes independentes estão perdendo sua licença e têm que destruir suas sementes, elas não vão ter nada, com efeito, para vender", disse Boies. "Isso requer que elas destruam coisas – destruam coisas que pagaram – se se tornarem competitivas. Esse é exatamente o tipo de restrição sobre escolhas competitivas que as leis antitruste proíbem".
Alguns donos de empresas de semente independentes disseram se sentem crescentemente prejudicados com o fortalecimento da liderança da Monsanto na indústria.
"Eles têm o capital, têm os recursos, são donos de muitas empresas e estão comprando mais. Nós somos uma cidade do interior, eles são a Wall Street", disse Bill Cook, co-proprietário da empresa de sementes M-Pride Genetics, em Garden City, Missouri, que também não quis discutir ou fornecer os acordos. "É muito difícil competir nesse ambiente contra empresas como a Monsanto".

Do capitalismo como ‘sistema parasitário’. Artigo de Zygmunt Bauman

“Ainda não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade movida a crédito e consumo”, afirma o sociólogo Zygmunt Bauman em artigo publicado no jornal argentino Clarín, 27-12-2009. A tradução é do Cepat.
Para o autor de Modernidade Líquida e Confiança e medo na cidade, entre outros livros, governos e instituições aprenderam muito pouco da crise econômica recente: a resposta à quebra foi endividar-se ainda mais. Eis o artigo.
Tal como o recente “tsunami financeiro” demonstrou a milhões de pessoas que acreditavam nos mercados capitalistas e na banca capitalista como métodos evidentes para a resolução exitosa de problemas, o capitalismo se especializa na criação de problemas, não em sua resolução.
Assim como os sistemas dos números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel, o capitalismo não pode ser ao mesmo tempo coerente e completo. Se é coerente com seus próprios princípios, surgem problemas que não pode abordar; e se trata de resolvê-los, não pode fazê-lo sem cair na falta de coerência com suas próprias premissas. Muito antes que Gödel escrevesse seu teorema, Rosa Luxemburgo publicou seu estudo sobre a “acumulação capitalista” em que sugeria que o capitalismo não pode sobreviver sem economias “não capitalistas”; pode proceder de acordo com os seus princípios sempre que tiver “territórios virgens” abertos à expansão e à exploração. Mesmo quando os conquista com finalidades de exploração, o capitalismo os priva de sua virgindade pré-capitalista e dessa forma esgota as reservas que o nutrem. Em boa medida, é como uma serpente que devora o seu próprio rabo: num primeiro momento os alimentos são abundantes, mas logo se torna cada vez mais difícil comê-los, e pouco depois não resta mais nada para comer nem quem os coma...
O capitalismo é, na essência, um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante algum tempo uma vez que encontra o organismo ainda não explorado do qual pode se alimentar, mas não pode fazê-lo sem prejudicar o hospedeiro nem sem destruir cedo ou tarde as condições de sua prosperidade ou até de sua própria sobrevivência.
Rosa Luxemburgo, que escreveu em uma era de imperialismo ascendente e conquista territorial, não foi capaz de prever que as terras pré-modernas de continentes exóticos não eram os únicos possíveis “hospedeiros” dos quais o capitalismo poderia se alimentar para prolongar a sua vida e iniciar sucessivos ciclos de prosperidade. O capitalismo revelou desde então seu incrível talento para buscar e encontrar novas espécies de hospedeiro cada vez que a espécie explorada anteriormente diminuía em número. Uma vez que anexou todas as terras virgens “pré-capitalistas”, o capitalismo inventou a “virgindade secundária”. Milhões de homens e mulheres que se dedicavam a economizar em vez de viver do crédito foram transformados com astúcia em um desses territórios virgens ainda não explorados.
A introdução dos cartões de crédito foi o indício do que se avizinhava. Os cartões de crédito apareceram no mercado com uma consigna eloquente e sedutora: “Elimine a espera para concretizar o desejo”. Deseja algo, mas não economizou o suficiente para comprá-lo? Bom, nos velhos tempos, que felizmente já ficaram para trás, era preciso postergar as satisfações (esse adiamento, segundo Max Weber, um dos pais da sociologia moderna, era o princípio que tornou possível o advento do capitalismo moderno): apertar o cinto, negar outros prazeres, gastar de maneira prudente e frugal e economizar o dinheiro que se podia separar com a esperança de que com o devido cuidado e paciência se reuniria o suficiente para concretizar os sonhos.
Graças a Deus e à benevolência dos bancos, já não é mais assim. Com um cartão de crédito, essa ordem pode ser invertida: desfrute agora, pague depois! O cartão de crédito nos dá a liberdade de manipular as próprias satisfações, de obter as coisas quando as queremos, não quando as ganhamos e podemos pagar.
Com a finalidade de evitar reduzir o efeito dos cartões de crédito e do crédito fácil a só um lucro extraordinário para aqueles que emprestam, a dívida teria que (e o fez com grande rapidez!) transformar-se em um atrativo permanente de geração de lucros. Não consegue pagar a dívida? Não se preocupe: ao contrário dos antigos emprestadores, ansiosos para recuperar o que haviam emprestado no prazo fixado de antemão, nós, os modernos emprestadores amistosos, não pedimos o reembolso de nosso dinheiro, mas lhe oferecemos ainda mais crédito para devolver a dívida anterior e ficar com algum dinheiro adicional (quer dizer, dívida) para pagar novos prazeres. Somos os bancos de quem gosta de dizer “sim”. Os bancos amistosos. Os bancos sorridentes, como afirmava um dos comerciais mais criativos.


A armadilha do crédito

O que nenhum dos comerciais declarava abertamente era que na realidade os bancos não queriam que seus devedores quitassem os empréstimos. Se os devedores devolvessem pontualmente os empréstimos, já não estariam endividados. É sua dívida (o juro mensal que se paga sobre a mesma) que os emprestadores modernos amistosos (e de uma notável sagacidade) decidiram e conseguiram reformular como a fonte principal de seu lucro ininterrupto. Os clientes que devolvem com rapidez o dinheiro que pegaram emprestado são o pesadelo dos emprestadores. As pessoas que se negam a gastar o dinheiro que não ganharam e se abstêm de pedi-lo emprestado não são úteis aos emprestadores, assim como também as pessoas que (motivadas pela prudência ou por um sentido antiquado de honra) se apressam a pagar suas dívidas a tempo. Para benefício seu e de seus acionistas, os bancos e provedores de cartões de crédito dependem agora de um “serviço” ininterrupto de dívidas e não do rápido reembolso das mesmas. Pelo que a eles concerne, um “devedor ideal” é que aquele que nunca paga completamente o crédito. Pagam-se multas se se quer quitar a totalidade de um crédito hipotecário antes do prazo estabelecido... Até a recente “crise do crédito”, os bancos e emissores de cartões de crédito se mostravam mais que dispostos a oferecer novos empréstimos a devedores insolventes para cobrir os juros não pagos de créditos anteriores. Uma das principais companhias de cartões de crédito da Grã-Bretanha se negou, há pouco tempo, a renovar os cartões dos clientes que pagavam a totalidade de sua dívida cada mês e, portanto, não incorriam em juro punitivo algum.
Para resumir, a “crise do crédito” não foi resultado do fracasso dos bancos. Pelo contrário, foi um resultado completamente previsível, se bem que inesperado, o fruto de seu notável sucesso: sucesso no relativo a transformar a enorme maioria dos homens e mulheres, velhos e jovens, em um exército de devedores. Obtiveram o que queriam conseguir: um exército de devedores eternos, a autoperpetuação da situação de “endividamento”, ao passo que se buscam mais dívidas como única instância realista de economia a partir das dívidas em que já se incorreu.
Ingressar nessa situação ficou mais fácil do que nunca na história da humanidade, ao passo que sair da mesma nunca foi tão difícil. Já se tentou, seduziu e endividou todos aqueles que podiam se converter em devedores, assim como a milhões de outros aos quais não se podia nem devia incitar a pedir empréstimos.
Como em todas as mutações anteriores do capitalismo, também desta vez o Estado assistiu ao estabelecimento de novos terrenos férteis para a exploração capitalista: foi por iniciativa do presidente Clinton que se introduziram nos Estados Unidos as hipotecas subprime patrocinadas pelo governo para oferecer crédito para a compra de casas a pessoas que não tinham meios para reembolsar esses empréstimos, e para transformar assim em devedores setores da população que até o momento haviam sido inacessíveis à exploração mediante o crédito...
Contudo, assim como o desaparecimento das pessoas descalças significa problemas para a indústria do calçado, o desaparecimento das pessoas não endividadas anuncia um desastre para o setor do crédito. A famosa profecia de Rosa Luxemburgo se cumpriu uma vez mais: outra vez o capitalismo esteve perigosamente próximo do suicídio ao conseguir esgotar a reserva de novos territórios virgens para a exploração...
Até agora, a reação à “crise do crédito”, por mais impressionante e até revolucionária que possa parecer, uma vez processada nas manchetes dos meios de comunicação e nas declarações dos políticos, foi “mais do mesmo”, com a vã esperança de que as possibilidades revigoradas de lucro e consumo dessa etapa ainda não se tenham esgotado por completo: uma tentativa de recapitalizar os emprestadores de dinheiro e de fazer que seus devedores voltem a ser dignos de crédito, de modo tal que o negócio de emprestar e tomar emprestado, de se endividar e permanecer nesse estado, possa retornar ao “habitual”.
O Estado de Bem-estar social para os ricos (que, ao contrário de seu homônimo para os pobres, nunca viu questionada a sua racionalidade, e muito menos interrompidas as suas operações) voltou aos salões de exposição após abandonar as dependências de serviço para onde seus escritórios haviam sido transferidos de forma temporária para evitar comparações invejosas.
O que os bancos não podiam obter – por meio de suas habituais táticas de tentação e sedução –, o fez o Estado mediante a aplicação de sua capacidade coercitiva, ao obrigar a população a incorrer de forma coletiva em dívidas de proporções sem precedentes: hipotecando o nível de vida de gerações que ainda não haviam nascido...
Os músculos do Estado, que fazia muito tempo que não eram usados com essas finalidades, voltaram a se flexionar em público, desta vez em prol da continuação do jogo cujos participantes fazem com que esta flexão seja considerada indigna, mas inevitável; um jogo que, curiosamente, não pode suportar que o Estado exercite seus músculos, mas não pode sobreviver sem ele.
Agora, centenas de anos depois que Rosa Luxemburgo tornou pública a sua intuição, sabemos que a força do capitalismo reside em seu incrível talento de buscar e encontrar novas espécies de hospedeiros toda vez que as espécies exploradas anteriormente diminuem de número ou se extinguem e no oportunismo e na velocidade, semelhante aos de um vírus, com as quais se adapta às idiossincrasias das suas novas pastagens. No número de novembro de 2008 do The New York Review of Books (no artigo “A crise e o que fazer a respeito”), o brilhante analista e mestre da arte do marketing George Soros apresentou o itinerário das empresas capitalistas como uma sucessão de “bolhas” que se expandiam para além de sua própria capacidade e estouravam com rapidez uma vez que atingiam o limite de sua resistência.
A “crise do crédito” não marca o fim do capitalismo; apenas o esgotamento de uma de suas sucessivas pastagens... A busca de uma nova relva começará logo, alimentada, assim como no passado, pelo Estado capitalista mediante a mobilização compulsiva de recursos públicos (usando os impostos em vez do poder de sedução, deficitário e temporariamente não operativo, do mercado). Buscar-se-ão novas “terras virgens” e se tentará, de um modo ou de outro, abri-las à exploração até que suas possibilidades de aumentar os lucros de acionistas e as bonificações dos dirigentes fique por sua vez esgotada.
Como sempre (como também aprendemos no século XX a partir de uma longa série de descobrimentos matemáticos desde Henri Poincaré até Edward Lorenz) um mínimo passo em falso pode levar a um precipício e terminar em uma catástrofe. Até minúsculos passos em frente podem desencadear inundações e terminar em dilúvio...
Os anúncios de outro “descobrimento” de uma ilha desconhecida atraem multidões de aventureiros que ultrapassam em muito as dimensões do território virgem, multidões que num abrir e fechar de olhos teriam que voltar correndo às suas embarcações para fugir do iminente desastre, esperando contra toda esperança que as embarcações sigam aí, intactas, protegidas...
A grande questão é em que momento a lista de terras disponíveis para uma “virginização secundária” se esgotará, e as explorações, por mais frenéticas e engenhosas que sejam, deixarão de gerar respiros temporários. Os mercados, que estão dominados pela “mentalidade caçadora” líquida moderna que substituiu a atitude de guarda-florestal pré-moderna e a clássica postura moderna de jardineiro, seguramente não vão se incomodar em colocar essa pergunta, dado que vivem de uma alegre escapada de caça a outra como outra oportunidade para adiar o momento da verdade, não importa se por um momento breve nem a que preço.
Ainda não começamos a pensar com seriedade na sustentabilidade da nossa sociedade movida a crédito e consumo. “A volta à normalidade” prognostica uma volta a vias sempre mais perigosas. A intenção de fazê-lo é alarmante: indica que nem os dirigentes das instituições financeiras, nem os nossos governos, chegaram ao fundo do problema com seus diagnósticos, e muito menos com seus atos.
Parafraseando Héctor Sants, diretor da Autoridade de Serviços Financeiros, que há pouco confessou a existência de “modelos empresariais mal equipados para sobreviver ao estresse (...), algo que lamentamos”, Simon Jenkins, um analista do The Guardian de extraordinária perspicácia, observou que “foi como se um piloto protestasse porque seu avião funciona bem com exceção dos motores”.

Telemarketing cresce, mas engatinha no sindicalismo


Fonte: IHU - 6/01/2010

São 20 minutos de almoço, que se somam aos dois intervalos de dez minutos para descanso, que podem ser acionados ao longo das seis horas diárias de trabalho. O supervisor checa, a cada instante, se as chamadas estão sendo solucionadas e, principalmente, se tudo está sendo feito depressa, conforme estipulado. O salário varia de R$ 550 a R$ 700. A única exigência é a conclusão do ensino médio. Apenas no Estado de São Paulo são cerca de 300 mil trabalhadores, que se somam aos quase 750 mil em outros Estados, que formam uma das categorias mais expressivas - e que mais crescem - do mercado de trabalho brasileiro: os operadores de telemarketing.
A reportagem é de João Villaverde e publicada pelo jornal Valor, 06-01-2010.

"É um setor novo, que ainda não atrai os holofotes que a indústria, e mesmo o comércio, atraem. As fábricas estão no Brasil há mais de cem anos, enquanto nós estamos aqui há menos de 20. É difícil competir por atenção da sociedade nesses termos", avalia Stan Braz, diretor-presidente do Sindicato Paulista das Empresas de Telemarketing (Sintelmark).
De acordo com Braz, é preciso "apelar" para a força do mercado de trabalho. Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), o setor de serviços tinha estoque de 12,6 milhões de trabalhadores no fim de 2008, quase o dobro de indústria e comércio - 7,3 e 7,4 milhões, respectivamente. No ano passado, dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que, até novembro, o setor de serviços havia registrado saldo líquido de 568 mil vagas, diante de 286 mil do varejo e 177 mil da indústria de transformação. "Não dá para comparar", diz Braz, "porque enquanto uma fábrica emprega 3 mil funcionários, uma empresa média do setor de telemarketing, por exemplo, emprega 10 mil."
O diretor do sindicato patronal aponta também para a "robustez econômica das empresas": só em São Paulo, o faturamento conjunto alcançou cerca de R$ 6 bilhões no ano passado, um crescimento de 6% em comparação com 2008. Mesmo assim, avalia, "o setor não consegue obter incentivos do governo ou atenção da sociedade".
Os serviços de call center se popularizaram no país na década de 1990, quando se ampliaram o número de linhas telefônicas e as táticas de comunicação direta - o telemarketing - de diferentes companhias. O grande boom do setor ocorreu depois da privatização da Telebrás, em outubro de 1998, quando se ampliou o acesso à linhas fixas e móveis. Em 11 anos, os "acessos telefônicos" passaram de 24,5 milhões para 211 milhões, com 41 milhões de aparelhos fixos e 170 milhões de celulares. Foi na década passada que grande parte das empresas de telemarketing surgiu, além dos sindicatos patronal, em 1996, e dos trabalhadores, em 1992.
"Somos um setor jovem em todos os sentidos: as empresas não alcançam duas décadas e os trabalhadores são, em sua maior parte, estudantes universitários", afirma Alexandre Jau, presidente da empresa de call center TMKT, que emprega pouco mais de 10 mil operadores de telemarketing. "A juventude do setor paga um preço caro. A sociedade reclama e até esnoba o uso do gerúndio por parte dos operadores, mas não se pergunta porque isso ocorre", diz Jau, para quem "há um problema na educação básica que não é corrigido pelo Estado e pela sociedade esclarecida, e nós apenas cumprimos o papel de oferecer emprego para essas pessoas", afirma.
O terreno laboral, para estes prestadores de serviços, é diferente de categorias tradicionais, como comerciários e industriais, nos quais o desenvolvimento de estratégias empresariais, práticas sindicais e intervenção do Estado fizeram eclodir um modelo de negócios claro, que envolve discussões anuais acerca de reajustes e concessões, de lado a lado. Os operadores de telemarketing são jovens - idade média de 22 anos -, despolitizados e interessados em ingressar no mercado de trabalho.
Empresários e sindicalistas do setor afinam o discurso quando dizem que, para os trabalhadores do setor, o call center é a porta de entrada - e temporária. Não há maiores vínculos com outros profissionais - que dividem as mesmas perspectivas - ou com o empregador.
"O jovem que começa a trabalhar como operador já entra pensando em sair, o que cria uma enorme rotatividade no setor", afirma Wagner Gomes, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), órgão que une, entre outros, o sindicato dos metroviários de São Paulo, dos metalúrgicos da Bahia e dos bancários de Sergipe. "Não há promoção, então é difícil construir qualquer coisa", afirma Gomes, acrescentando que "mesmo pensar no futuro é difícil numa situação dessas". "O jovem sabe que ali ele não vai ficar muito tempo, seja porque não vai aguentar, seja porque vai se formar e seguir carreira em outra função", diz. Para Gomes, esse perfil da categoria dificulta a ação sindical, uma vez que, para a empresa, há grande oferta de mão de obra para primeiro emprego.
A TMKT, segundo Jau, faturou cerca de R$ 180 milhões em 2009, 4,5% mais que em 2008. Ele estima crescimento maior este ano, mas critica a "ausência de planos e estratégias, por parte do governo", para o setor de telemarketing. "Não temos política tributária. Parece que só existe indústria automobilística neste país. Poderíamos também contar com um 'sistema S', semelhante ao que a indústria tem à sua disposição para capacitação profissional", afirma.
Jau, que foi o primeiro presidente do sindicato patronal do setor, estima que 72% dos custos das empresas de telemarketing são com folha de pagamento e encargos trabalhistas. Assim, diz, uma negociação com o sindicato dos trabalhadores acerca de condições salariais é sempre "complicada". Mesmo assim, "o sindicato dos trabalhadores ganhou maturidade nos últimos anos, porque está mais flexível e sabe negociar", avalia.
A data-base da categoria, em São Paulo, é entre abril e maio, quando são decididos os reajustes salariais. Em 2009, a demanda dos operadores foi de 5,5% de aumento real, enquanto as empresas apenas concordavam em repor a inflação - no fim, fecharam com aumento real de 4%, mesmo índice conquistado pelo tradicional sindicato dos metalúrgicos do ABC, onde, no entanto, o salário médio é cinco vezes maior (R$ 3.434, segundo oDieese) que os verificados no call center.
Para o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Telemarketing (Sintratel) de São Paulo, Marco Aurélio Oliveira, é preciso combinar estratégias para comover os jovens operadores. Não basta, afirma, promover assembleias na sede do sindicato, mas mesclar a conscientização política com o "divertimento que os jovens querem". Assim, os encontros dos sindicato são realizados em forma de festas. "Vamos às portas das empresas e distribuímos chamados, que são muito semelhantes aos 'flyers' de festas universitárias, e reunimos cerca de 1,5 mil a 2 mil trabalhadores. Em determinado momento da festa, interrompemos a música para, em 15 minutos, transmitir mensagens". E elas surtem efeito? "Cumprem um papel significativo, ao lado do blog, do twitter e do nosso site na internet", diz. "Precisamos falar a língua da categoria, não adianta ficarmos presos em modelos antigos."
Oliveira é favorável à criação, por parte do Estado, de um sistema de treinamento e capacitação de trabalhadores para o telemarketing, num modelo semelhante ao sistema S, para a indústria. "É preciso preparar o jovem para os serviços, até porque o número de jovens na indústria é irrisório perto do número de jovens em telemarketing, e, mesmo assim, o investimento que se tem com o jovem da indústria é astronômico", diz Oliveira, para quem a qualificação e requalificação do profissional é "uma bandeira urgente do sindicato".
O Sintratel se apoia numa categoria em expansão para ampliar sindicalizados e fortalecer sua legitimidade em campanhas salariais. O sindicato está atento - e ativo - para aumentar a base de membros: segundo Oliveira, "quem se filiar concorre a prêmios, como celulares, MP3, MP4, utensílios domésticos e de beleza, que serão sorteados no sindicato".

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Belo Monte. 'Projeto faraônico e gerador de morte''. Entrevista especial com Dom Erwin Kräutler



“Eu sei quanto suor esse povo derramou e quanto tempo gastou para construir suas casas. Digo mais uma vez: são casas de alvenaria e não barracos ou palafitas! Agora esse povo será compulsoriamente arrancado de seus lares e transferido para onde?”, pergunta Dom Erwin Kräutler, na entrevista que concedeu à IHU On-Line, realizada via e-mail. O bispo de Altamira, município situado em plena selva amazônica do Pará, descreve o apoio que a Igreja tem dado ao povo que luta contra a hidrelétrica de Belo Monte e também o que ocorreu depois do encontro que teve com Lula em setembro deste ano. “Não faltam opções e não faltam cientistas de renome que apresentam alternativas. Mas são silenciados imediatamente e até ridicularizados quando falam em energia solar ou eólica”, apontou ele.
Dom Erwin também analisou o apagão que ocorreu em novembro. “Até hoje, não foram reveladas as verdadeiras causas que provocaram o apagão. Mas a ocorrência de uma falha no sistema ou até de uma irresponsabilidade na manutenção não justifica nunca uma construção gigantesca de consequências imprevisíveis, nocivas para os povos da região do Xingu e para o meio ambiente”. Quando questionado sobre como Marina Silva e Lula têm agido em relação à Belo Monte, Dom Erwin é veemente: “Marina Silva me decepcionou. Jamais pensei que ela se submetesse tão tranquilamente aos ditames de sua candidatura à presidência da República”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual o apoio que o senhor tem recebido da Igreja nessa luta contra a hidrelétrica de Belo Monte?
Dom Erwin
Sou bispo da Igreja que está no Xingu. A "minha" Igreja (não no sentido possessivo, mas de pertença!) é esta, que se encontra aqui e agora, na Amazônia. Ela não é apenas parte da Igreja espalhada pelo mundo, mas nela também subsiste a Igreja com todas as suas características: una, santa, católica e apostólica. E esta Igreja local encontra-se hoje diante de tremendos desafios. Não tenho a menor dúvida: estou recebendo o apoio desta Igreja no Xingu, Povo de Deus que aqui vive e caminha, luta e reza, se reune e celebra, se engaja por uma sociedade justa e fraterna, acredita que "outro mundo é possível", que coincide para nós com o sonho de Jesus: o Reino de Deus. Sim, sinto que essa Igreja que está no Xingu apoia o seu bispo quando assume a defesa dos povos que aqui vivem contra um projeto faraônico e megalomaníaco que promete gerar energia, mas, na realidade, vai gerar morte.
A Igreja no Pará e Amapá (Regional Norte II da CNBB) manifestou-se de maneira inequívoca por ocasião de sua 32ª Assembleia Pastoral Regional (26 - 28 de agosto de 2009) em uma "Carta Aberta" onde afirma textualmente: "Neste momento, assistimos com muita preocupação aos trâmites em torno da projetada construção da Hidrelétrica de Belo Monte. Mais um grande empreendimento que não leva em conta os verdadeiros anseios da população e atiça apenas a ambição daqueles que apregoam um desenvolvimento que certamente será passageiro e destruidor. (...). Que desenvolvimento é esse que destrói inescrupulosamente o hábitat de povos e famílias, a flora e a fauna? Esse megaprojeto, se concretizado, deixará milhares de ”projetos de vida” atropelados pelo deslocamento compulsório de inúmeras famílias de suas casas e de suas terras. (...) Os povos indígenas e comunidades tradicionais, secularmente perseguidos e dizimados, receberão o golpe fatal perdendo seus territórios e recursos naturais – e sobretudo a terra querida de seus ritos e mitos, onde sepultaram os seus ancestrais. Ressoa aos nossos ouvidos o grito de um índio Kayapó: 'O que será de nossas crianças!'"
Já o Documento do IX Encontro de Bispos da Amazônia (Manaus, 11 a 13 de setembro de 2007) "Discípulos Missionários na Amazônia" reclama: "Os grandes projetos são decididos fora da Amazônia, visando interesses que não beneficiam os amazônidas. Há projetos do Governo e de empresas com capital transnacional. Faz-se necessário analisar as consequências desses projetos: o desequilíbrio ecológico e social, o desmatamento, as mudanças climáticas etc." (n. 24)
Sei também que a CNBB, sua presidência e o Conselho Permanente, sempre apoiou o meu e nosso empenho em favor dos povos indígenas no Xingu, dos ribeirinhos e do povo em geral que habita a cidade de Altamira e outras cidades vizinhas que fatalmente serão atingidos por esse projeto.

IHU On-Line – Que reações o senhor teve depois do encontro com Lula que, na época, falou que nada seria feito "goela abaixo"?
Dom Erwin
O presidente Lula me convidou para mais uma audiência que deveria ter acontecido entre 25 e 27 de novembro passado. Eu aguardava diariamente ser chamado, mas, no dia 26, por volta das 21 horas, fui informado de que o Presidente estava em viagem para a Venezuela e lamentavelmente não fora possível achar uma janelinha na agenda para receber-me. A promessa de "não empurrar o projeto goela abaixo de quem quer que seja" do Presidente não contou com a anuência de seu setor energético que não alterou em nada suas estratégias.
Depois do encontro com o presidente Lula, em 22 de julho de 2009, tive outra oportunidade de conversar com representantes do Governo, desta vez, em Altamira, por ocasião das já famigeradas audiências públicas policiadas. Mais uma vez, achei imprescindível convidar representantes dos movimentos sociais de Altamira, mas os doutores voltaram a desfilar a mesma ladainha de vantagens e benefícios que já não convence ninguém. Explicaram que defendiam a viabilidade de Belo Monte do ponto de vista meramente técnico e, já um tanto acuados, admitiram que os problemas se situam na dimensão social e ambiental. Quem de nós não sabia disso? Mesmo assim, foi bom ouvir que eles concordam que existem tais problemas. Aí começaram a jorrar perguntas, nenhuma delas obtendo resposta convincente. Os doutores vêm com promessas vagas ou se calam quando se entra em detalhes, ou então, afirmam que tudo terá solução, mas não revelam que tipo de solução haverá.
Pior, de repente, perdem as estribeiras e reagem com uma arrogância e prepotência que nunca esperávamos de membros do atual Governo e nos fazem recordar os idos da Ditadura Militar. Falam abertamente que nós podemos fazer o que bem entendemos: "O projeto vai sair!". O cinismo de afirmações como estas parece insuperável. Os senhores Walter Cardeal e Adhemar Palocci estão convictos de seu protagonismo em relação a esse nefasto projeto e querem passar, qual rolo compressor, por cima de todos nós. Não sei se o Presidente da República realmente se dá conta dessa investida ditatorial de seu primeiro escalão. Peço a Deus que o nosso presidente caia na real e desista da execução deste projeto. Caso contrário, entrará na história como o grande depredador da Amazônia e o coveiro dos povos indígenas e ribeirinhos do Xingu.
Percebemos com grande angústia que, para esses setores do Governo, a ministra da Casa Civil e o ministro de Minas e Energia, o projeto está decidido. Por isso, toda essa pressão em cima do Ibama que é considerado "chato" por não chegar à conclusão de seus estudos para emitir a esperada licença prévia para a construção da Hidrelétrica Belo Monte. Tem-se a nítida impressão de que a esses ministérios e setores do Governo não interessa uma avaliação pormenorizada, criteriosa e responsável pelo órgão competente. Pressão em cima do Ibama é a ordem do dia. Chega de "entraves e penduricalhos"! Tempos atrás, num banquete oferecido pelo Governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, maior plantador individual de soja do país e ganhador do troféu "motosserra de ouro", por sua contribuição ao desmatamento do país, o próprio presidente Lula se deixou levar a uma declaração comprometedora.
Identificou os índios, os quilombolas, os ambientalistas e até o Ministério Público como "entraves" para o progresso. Considerou ainda "penduricalhos" os artigos da legislação ambiental, pois, estes parâmetros legais estariam travando o desenvolvimento do país. Por isso, a ordem é de desconsiderar ou, pelo menos, não dar tanta importância a impactos sociais e ambientais. Caso contrário, o país estaria condenado à estagnação. Pode até ser que o presidente posteriormente se arrependeu do que falou de improviso, mas a mídia já havia divulgado a gafe e setores do Governo se apoderaram desse enunciado presidencial fazendo coro ao que declarou a máxima autoridade no País.
Contudo, nós não paramos e continuamos a chamar a atenção da sociedade para os efeitos sociais e ambientais irreversíveis que o projeto, se for executado, vai causar. Dou-me conta de que, em Altamira e nos municípios circunvizinhos, apenas uma parte de empresários e comerciantes defendem o projeto por pensarem em rios de dinheiro que vão inundar a praça, esquecendo-se, no entanto, que um terço de Altamira vai para o fundo, e Vitória do Xingu tornar-se-á cidade fantasma porque perderá o porto que abastece Altamira e toda a região da Transamazônica. Os afluentes do Xingu nos municípios Senador José Porfírio e Porto de Moz secarão ou serão reduzidos a meros fios d'água, impossibilitando a navegação e a pesca que sustenta aquele povo e a agricultura familiar à beira daqueles rios.
Altamira está hoje beirando os 100 mil habitantes. Mais de trinta mil pessoas vão ser compulsoriamente retiradas de seus lares que ficarão debaixo d'água, em troca de promessas de uma vida melhor. Os técnicos da Eletrobrás, no entanto, não sabem onde irão alojar todas essas famílias. E as experiências de outros empreendimentos menores que Belo Monte nos ensinam que as promessas não se concretizam. O próprio presidente Lula falou-me, na audiência que tive com ele, no dia 22 de julho de 2009, "da grande dívida do Brasil em relação aos atingidos por barragens, até hoje não saldada". Será que, daqui para a frente, tudo vai mudar? Será que, de repente, todas as promessas serão honradas, e as famílias arrancadas de suas moradias serão transferidas para mansões construídas para elas em lugar aprazível. O Governo até hoje nem sabe para onde será removido todo esse povo. Além do mais, subestima tremendamente a população que será diretamente atingida por essa desgraça.
Há poucos dias, em entrevista concedida ao Jornal do Brasil (13.12.09), o presidente do Ibama, Roberto Messias Franco, cita meu nome e concorda comigo: "ele tem uma preocupação legítima: e se vier mais gente, peões, com a construção? Tem razão em querer um plano de assistência social para essas pessoas". Em seguida, afirma: "as cerca de 12 mil pessoas que moram lá, em palafitas, beiras de igarapés, sem saneamento básico, devem ser reassentadas em condições melhores que as de hoje. O presidente Lula faz questão de dizer que as pessoas não podem ser arrancadas do lugar, mas recolocadas onde a vida pode ser melhor. Vai exigir novos bairros, novas cidades, com assistência, casas, estrutura". Ora, o presidente do Ibama está terrivelmente equivocado quando fala em "palafitas". Existem "algumas" moradias deste tipo à beira do Igarapé Altamira e ao longo da Estrada Ernesto Acioly, mas as ruas (só se fala em ruas, não em moradias!) na área que será inundada, segundo os estudos feitos pelo próprio Governo (EIA/RIMA), são margeadas por casas, em sua imensa maioria, de alvenaria, casas até de dois andares. Senti um aperto no coração durante a procissão da Imaculada Conceição realizada no último dia 8 de dezembro. Passamos exatamente pelas ruas cujos dias serão contados se o projeto tornar-se realidade.
Não são apenas 12 mil pessoas. Peço ao presidente do Ibama que envie seu pessoal para atualizar o censo dos diretamente atingidos. Eu sei quanto suor esse povo derramou e quanto tempo gastou para construir suas casas. Digo mais uma vez: são casas de alvenaria e não barracos ou palafitas! Agora esse povo será compulsoriamente arrancado de seus lares e transferido para onde? O presidente Lula não explica "onde a vida pode ser melhor", só promete "novos bairros, novas cidades, com assistência, casas, estrutura". Será que Lula sonha com um Shangri-La tropical para esse povo que será atingido pela desgraça de Belo Monte, será que ele quer recuperar o paraíso perdido ou fazer emergir das águas represadas do Xingu uma Atlântida submersa. Déjà vu! Esse filme já conhecemos desde Itaipu, e ainda mais desde Tucuruí e a desastrosa Balbina! Quem dá a garantia para as promessas presidenciais se concretizarem? Quando o lago submergir um terço da cidade de Altamira, o presidente Lula e seu staff já obterão suas polpudas aposentadorias e irão lavar suas mãos, pois não terão que prestar homenagem ou satisfação a quem, naquela altura, governará o Brasil. E será que um futuro Governo vai honrar o compromisso assumido por Lula de recolocar esse povo "onde a vida pode ser melhor"? A futura geração amazônica irá condenar ao inferno a quem causou toda essa desgraça e arrasou irreversivelmente essa região magnífica. Mas, o arrogante setor energético do Governo não se dispõe a ouvir o brado do povo. Dane-se quem for contra a hidrelétrica! Bem de acordo com aquele antigo provérbio árabe: Os cães ladram e a caravana passa!

IHU On-Line – Algumas críticas têm sido feito no sentido de que os ambientalistas apenas são contra, mas não apresentam alternativas para produção de energia no país. Que opções temos para gerar energia, sem ser a partir da construção de hidrelétricas na Amazônia?
Dom Erwin
Não faltam opções e não faltam cientistas de renome que apresentam alternativas. Mas são silenciados imediatamente e até ridicularizados quando falam em energia solar ou eólica. Há poucos dias, o Fantástico, da Rede Globo, apresentou novas técnicas que os japoneses inventaram de transformar, em grande escala, os raios solares em energia elétrica. O problema é que quaisquer alternativas não interessam às firmas construtoras que estão ávidas de aplicar seu know-how e fazer funcionar todo o seu maquinário exatamente na construção de hidrelétricas, modelo tradicional, com barramentos, imensos paredões de cimento, diques e canais de derivação. É só isso que sabem fazer e traz lucros astronômicos. Nada se importam com as consequências para os povos da região e o meio ambiente. É por isso que pressionam desavergonhadamente o Ibama para liberar logo a licitação. Têm muita pressa de faturar.

IHU On-Line – Houve repercussões do apagão, ocorrido na semana passada, nas argumentações favoráveis à construção da Usina de Belo Monte? O apagão reforça as motivações do governo?
Dom Erwin
Naturalmente, para os defensores do projeto, o apagão era bem-vindo. Eles se deleitaram quando a mídia veiculou a notícia de que alguns Estados do sul e sudeste ficaram por horas sem energia. Até hoje não foram reveladas as verdadeiras causas que provocaram o apagão. Mas a ocorrência de uma falha no sistema ou até de uma irresponsabilidade na manutenção não justifica nunca uma construção gigantesca de consequências imprevisíveis, nocivas para os povos da região do Xingu e para o meio ambiente.

IHU On-Line – Marina Silva afirmou que "não há como fugir do aproveitamento energético do rio Xingu". Analisando também a posição de Lula sobre o empreendimento, como o senhor percebe essas formas de olhar os rios da Amazônia?
Dom Erwin
Marina Silva me decepcionou. Jamais pensei que ela se submetesse tão tranquilamente aos ditames de sua candidatura à presidência da República. Nunca pensei que ela abrisse mão de sua convicção de defender o meio ambiente contra projetos insanos e imperdoavelmente omissos nos seus estudos de viabilidade. Marina fala como candidata do Partido Verde e, como tal, deveria exatamente assumir a defesa do "Verde das Florestas"! A afirmação "não há como fugir do aproveitamento energético do rio Xingu" é a mesma cantilena que estamos cansados de ouvir da boca dos intransigentes tecnocratas do Governo. Pior, ao repetir esse refrão, Marina capitula diante dos ideais que fizeram dela uma voz respeitada e uma referência em nível nacional e internacional em se tratar da defesa da Amazônia. Não é mais a Marina que eu conheci e hospedei em Altamira no dia em que mataram a Irmã Dorothy! Marina traiu sua missão de vanguarda dos povos da floresta. O que ela espera alcançar com essa mudança de seu visual? Alguns votos dos que até agora fizeram oposição à ela?

IHU On-Line – Qual a força e os limites da pressão social contra Belo Monte? A decisão, em sua opinião, sobre a construção ainda pode ser revertida?
Dom Erwin
Claro que pode ser revertida! E é isso que esperamos! Que finalmente todo esse discurso sedutor do Governo e das empresas barrageiras e mineradoras seja desmistificado. A espada de Damocles paira sobre o Xingu e seus povos, pendurado por um fio muito delgado. Mas, como a lenda contada pelo escritor romano Horácio não termina em tragédia, pois, o fio tênue resistiu, assim esperamos que a sensatez vença a insanidade, e o Xingu continue "vivo para sempre".

IHU On-Line – Qual é o protagonismo dos povos indígenas na luta contra Belo Monte?
Dom Erwin –
De uma coisa tenho certeza: os índios não vão desistir. Podem até ser derrotados para a vergonha do atual Governo, mas não desistirão nunca. Eles têm outros parâmetros para avaliar os projetos. Para eles, o rio é sagrado, e o sujeito da história é o povo, e não um projeto inventado por "brancos" que consideram a terra, a selva e o rio matéria-prima para fazer negócios. A palavra de ordem deste sistema capitalista neo-liberal é "nenhuma terra, nenhuma floresta, nenhum rio fora do mercado!" enquanto os índios, da altura se sua sabedoria milenar, gritam: "Toda a terra, a selva e o rio a favor da Vida e da Paz". São dois projetos em confronto: um a favor da Vida, outro a favor do negócio a qualquer preço.
Dou-me conta que, no contexto desse Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), os povos indígenas estão sofrendo mais uma fase de anti-indigenismo, partindo, desta vez, dos mais altos escalões do Governo. Lembro apenas dois episódios altamente vergonhosos. O ministro de Minas e Energia Edison Lobão se refere aos índios com um termo tão discriminatório que causa inveja ao regime nazista em relação ao povo judeu. O ministro sujou internacionalmente a imagem do Brasil. Chama os índios e seus aliados de "forças demoníacas"! Quando no "escândalo da parabólica" o respeitado jurista e diplomata Rubens Ricupero, Ministro da Fazenda em 1994, inadvertidamente revelou "em off" alguns detalhes nada comprometedores do Plano Real, teve que renunciar ao cargo. O ministro Lobão não falou "em off", mas em bom e alto som para o Brasil e todo mundo ouvir e saber o que pensa dos povos indígenas. Mesmo assim continua incólume em sua função. Entendo que, segundo a Constituição Cidadã de 1988, esse ministro deveria ser processado por discriminação racial.
O outro caso foi perpetrado pela Funai, que deveria defender os interesses e anseios indígenas. Preferiu assumir o papel de Judas na questão de Belo Monte. Entrará na história como traidora dos povos indígenas do Xingu! A Funai é sucessora do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), idealizado e criado, em 1910, pelo grande defensor dos povos indígenas, Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. Foi extinto, em 1967, devido a veementes protestos internacionais por causa das carnificinas promovidas em aldeias indígenas às barbas do SPI e sob seus benévolos olhares. A Funai, atual órgão indigenista do Governo, sucessora do SPI, também fecha os olhos ante um desastre projetado. Como o SPI tapou os ouvidos aos gritos dos índios torturados do século passado e, por isso, foi extinto, a Funai do século XXI também não quer importunar-se com o clamor destes povos. Antes atende aos interesses de empresas barrageiras e mineradoras que jamais se importarão nem com indígenas, nem com ribeirinhos, nem com as famílias das baixadas de Altamira que serão compulsoriamente expulsas de seus lares, nem com a flora ou fauna do Xingu. Sem o menor escrúpulo repetem com o rei Louis XV da França (1710-1774): “Aprés moi le deluge” (Depois de mim o dilúvio).
Mais um capítulo da resistência ao projeto Belo Monte foi escrito no dia 1º de dezembro passado. A Procuradoria Geral da República convidou para um debate entre o Governo Federal e as populações que serão mais atingidas, caso o projeto se torne realidade. Dezenas de indígenas, ribeirinhos e representantes dos movimentos sociais de Altamira enfrentaram uma longa e cansativa viagem até a capital federal no intuito de participar dos debates, coordenados pela Dra. Débora Duprat, Vice-Procuradora Geral da República. E qual não foi a surpresa dos que vieram de tão longe: os representantes de importantes órgãos do Governo Federal simplesmente não compareceram à audiência pública. Nem a Fundação Nacional do Índio (Funai), nem a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e, pior ainda, nem a própria Centrais Elétricas Brasileiras S.A. (Eletrobrás) acharam necessário fazerem-se presente. Antônia Melo, recém-condecorada pela OAB-Pará com o prêmio José Carlos Castro, em reconhecimento de sua defesa da dignidade humana e do meio ambiente na Amazônia, lamentou em nome de todos: "Hoje, mais uma vez, eles não quiseram ouvir o povo. Não quiseram debater com o povo. É uma vergonha a arbitrariedade com que estão tratando nossa gente!" Mesmo assim, as lideranças entregaram documentos em que, mais uma vez, repudiam a construção da barragem e da hidrelétrica de Belo Monte e afirmam que não vão desistir da luta, acenando - Deus queira que não aconteça! - até com a possibilidade de haver derramamento de sangue na defesa do rio. O que me assusta neste episódio todo é a brutal determinação dos órgãos governamentais de simplesmente ignorar essa gente que não foi a passeio para Brasília e pôr "no gelo" os representantes dos povos indígenas, dos ribeirinhos, do povo de Altamira. Através de uma atitude antidemocrática como esta, torna-se patente que estão querendo matar-nos pelo cansaço. Mas não conseguirão!
E os índios se manifestaram numa carta, datada de 1º de dezembro de 2009 que impressiona por causa de sua mensagem contundente. É um derradeiro brado indígena a um governo aparentemente insensível. Quem lê o último parágrafo desta carta fica triste por causa da irritante frieza do Governo, mas a tristeza se transforma e indignação e revolta contra os responsáveis por um projeto insano que querem tocar sem dó e piedade, custe o que custar: "Nós, povos Indígenas, não vamos sentar mais com nenhum representante do governo para falar sobre UHE Belo Monte; pois já falamos tempo demais, e isso custou 20 anos de nossa história. Se o governo brasileiro quiser construir Belo Monte da forma arbitrária de como está sendo proposto, que seja de total responsabilidade deste governo e de seus representantes como também da justiça o que virá a acontecer com os executores dessa obra; com os trabalhadores; com os povos indígenas. O rio Xingu pode virar um rio de sangue. É esta a nossa mensagem. Que o Brasil e o mundo tenham conhecimento do que pode acontecer no futuro se os governantes brasileiros não respeitarem os nossos direitos como povos indígenas do Brasil".