segunda-feira, 9 de junho de 2008

Ameaçados pela FOME e pela falta de líderes

Foram três dias de discussão inútil sobre a fome mundial na Cúpula sobre Segurança Alimentar, terminada ontem. Se depender da FAO, braço da ONU para Alimentação e Agricultura, que organizou a reunião em Roma dos bem nutridos debatedores, 832 milhões de pessoas vão continuar passando fome no mundo e outros 2 bilhões entrarão logo para o rol dos famintos.
É a tragédia anunciada do neoliberalismo. Não se pode deixar por conta exclusiva do mercado o problema da segurança alimentar, mas quase metade da população da terra vai ter que passar fome para que os dirigentes das nações reaprendam essa verdade sabida desde a década de 1930, quando o economista britânico John Maynard Keynes ensinou ao presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, a forma de sair da crise econômica desencadeada pela “sexta-feira negra” da Bolsa de Nova York.
O ouro e outros metais já serviram de lastro para a moeda. Isso terminou quando foi preciso, na década de 1970, tirar os Estados Unidos de uma de suas crises capitalistas periódicas. Hoje o único lastro para a moeda é a confiança, uma commodity cada vez mais rara no mercado.
Seria mais inteligente que, em vez de dólares, servissem de lastro bens que pudessem ser estocados e cuja produção se quisesse aumentar. O trigo, por exemplo – ou qualquer outro alimento.
Talvez assim a ONU pudesse tomar o problema em suas mãos e dizer aos agricultores: vocês podem produzir “x” toneladas de trigo por ano e, se não venderem no mercado, por excesso de produção, vamos comprar para estocar. Ou então vocês mesmos estocam a seu risco e o governo de seu país financia a estocagem. Com isso, a produção do trigo no mundo continuaria aumentando de uma maneira equilibrada com o potencial de crescimento da demanda. O mesmo para outros produtos.
Talvez assim pudéssemos sair do círculo vicioso que se observa hoje, quando, em épocas de muita produção o preço cai. No ano seguinte, os fazendeiros – ou as empresas agrícolas, como virou moda hoje – estarão desestimulados para produzir aquele bem, há escassez no mercado e o preço sobe, estimulando de novo a produção... É uma situação idiota, que vai de uma crise a outra enquanto milhões de pessoas passam fome no mundo e os especuladores ganham com a escassez.
Não é preciso ter um governo forte agindo sobre a economia, como nos anos 70, para que esse sistema funcione bem no Brasil. Os Estados Unidos, desde o princípio da década de 1930, por sugestão de Keynes, vinham fazendo estocagens estratégicas para os produtos agrícolas, e com isso conseguiram ter a maior produtividade agrícola do mundo. O agricultor tinha horizonte pela frente, pois sabia que podia produzir um ano depois do outro e vender para o mercado ou para o governo. Mas o neoliberalismo chegou para enfraquecer o governo e para fortalecer os especuladores também nessa área básica da economia.
Além disso, como alertou Fritjof Capra em “O Ponto de Mutação”, as grandes companhias agropecuárias arruínam o solo de que depende nossa própria existência, perpetuam a injustiça social e a fome no mundo, e ameaçam seriamente o equilíbrio ecológico global. Uma atividade que era originalmente dedicada a alimentar e sustentar a vida converteu-se num importante risco para a saúde individual, social e ecológica.
Há mais de duas décadas, esse físico preocupado com a saúde da terra dizia que embora a biomassa seja um recurso renovável, o solo onde ela cresce não é. Certamente podemos esperar uma significativa produção de álcool a partir da biomassa, incluindo o cultivo de plantas para esse fim, mas um programa maciço de álcool para alimentar as necessidades atuais de combustível líquido esgotaria nossos solos no mesmo ritmo em que estamos hoje exaurindo o carvão, o petróleo e outros recursos naturais.
E não resolve tentar recuperar o solo com fertilizantes e outros produtos químicos, pois eles são desastrosos para a saúde do solo e das pessoas. Eles perturbam o equilíbrio do solo. Por exemplo, reduzindo a quantidade de matéria orgânica e a capacidade do solo para reter a umidade. O conteúdo do húmus é exaurido e a porosidade do solo diminui. Este fica duro e compacto, o que obriga os agricultores a usar máquinas mais poderosas, compactando mais ainda o solo. Por sua vez, o solo estéril fica mais exposto à erosão provocada pelo vento e pela água.
Tanto isso é verdade que, em 1976, dois terços dos condados agrícolas dos Estados Unidos já eram considerados áreas de calamidade devido à seca e, nos 25 anos anteriores, metade do solo arável em Iowa havia desaparecido. O uso maciço de fertilizantes químicos afetou seriamente o processo natural de fixação do nitrogênio ao danificar as bactérias do solo envolvidas nesse processo. Por conseqüência, as culturas estão perdendo sua capacidade de absorver os nutrientes do solo e ficando cada vez mais viciadas em produtos químicos sintéticos.
O problema se agrava quando amplas extensões de terras agricultáveis são ocupadas pela monocultura. Por exemplo, pelos canaviais. As usinas tentam manter a produtividade, usando mais e mais fertilizantes e agravando mais e mais a situação. O uso excessivo de fertilizantes químicos resulta em enorme recrudescimento de pragas e doenças, que os agricultores contra-atacam pulverizando as áreas plantadas com doses cada vez maiores de pesticidas. Ou seja, combatem os efeitos do abuso de produtos químicos pelo uso de mais produtos químicos. Eles e seus solos ficam mais pobres e os fabricantes de produtos químicos mais ricos. O uso maciço de pesticidas começou em fins da década de 1940, e desde então as perdas de safras causadas por insetos dobraram. As culturas são agora atacadas por novos insetos que se transformaram em pragas cada vez mais resistentes a novos inseticidas.
Diante de um quadro desses e da falta de líderes mundiais (alguém ainda acha que o presidente do Brasil é um líder capaz de contribuir para a solução do problema?), qual o espanto em que a Cúpula sobre Segurança Alimentar tenha sido um fracasso? No fim da reunião, o chanceler italiano, Franco Frattini, admitiu: "Se os líderes mundiais não conseguem pôr-se de acordo ao menos para evitar os danos de uma situação dramática de emergência alimentar, isso me preocupa".
Ainda bem que há alguém preocupado com isso...


06.2008

Um comentário:

Cristina Castro disse...

Muito bacana a divulgação deste artigo, publicado originalmente no blog Tamos com Raiva (www.tamoscomraiva.com.br) e no site da revista digital NovaE (www.novae.inf.br), e escrito pelo jornalista José de Souza Castro.